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Luxo de comer
Por Ana Julia Prieto

Símbolo da vida eterna o ovo é sem dúvida um dos ícones mais fortes da Páscoa. Não é à toa que a prática de se presentear pessoas queridas com o ovo mais precioso que se tivesse à disposição não se perdeu ao longo dos tempos. Se no século XII o costume mais fino estava nos ovos pintados à mão, fossem eles de pata, cerâmica, pedra ou casco de tartaruga, no século XIX os russos chegaram ao apogeu da tradição com a criação dos valiosos ovos de Fabergè, criados com ouro e pedras preciosas.

Com o advento da indústria do chocolate no século XX, os ovos decorativos foram aos poucos perdendo espaço para os presentes adocicados e, de certa forma, de curta duração. Com o intuito de resgatar o luxo dos ovos do império russo, sem perder a alegria gastronômica da Páscoa atual, mestres chocolatiers decidiram unir as duas tradições. Surgem assim ovos feitos com o mais fino chocolate de origem, recheados com praliné ou marzipã e, como se não bastasse, cobertos com folhas de ouro comestível. Um luxo de encher olhos e boca.

Em São Paulo, a tradição dos ovos de porcelana ainda sobrevive com todo o glamour necessário na Chocolat du Jour. Ali, a peça pintada à mão na região de Limoges, na França, serve como porta-jóias folhado a ouro para os mini-ovos de chocolate recheados de marzipã, nougat, gianduia ou damasco. A peça, com 900 g de chocolate sai por R$ 462. Há ainda o ovo dourado de avestruz que, recheado de bombons do mais fino chocolate, sai por R$ 389. “Acrescentar um toque de dourado nos ovos é realmente uma grande tendência”, afirma Patrícia Landman, diretora de marketing da Chocolat du Jour.

reprodução
Ovo Porcelaine Chocolat du Jour

No Rio de Janeiro, a boutique Aquim criou ovos que mais se parecem com mini-jóias, e não por um acaso foram batizados de Fabergè, feitos com chocolate amargo recheado com trufa e coberto com folhas de ouro. Há ainda uma versão com chocolate ao leite, praliné de amêndoas e pistache. Pesando 500 g, cada um deles não sai por menos de R$ 350. Para os coelhinhos mais gourmet, a casa ainda elaborou uma caixa com mini-ovos de chocolate especial, vindos da Tanzânia, Santo Domingo e Java.

Segundo Andressa Vasconcellos, da Saint Phylippe, o cacau cultivado na ilha caribenha de Santo Domingo é intenso e potente, com aromas frutados e de ervas, enquanto o cacau da Tanzânia – onde é produzido apenas 0,12% de todo o cacau do mundo – dá origem a um chocolate amargo raro e singular, com rica variedade de aromas e um notável toque de baunilha. Já o cacau de Java gera chocolates com toques de caramelo e uma ligeira e agradável acidez. Em seu ateliê paulistano, ainda são feitos ovos com cacau vindo de Grenade e São Thomé.

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Ovos da Saint Phylippe

“Os chocolates de origem não têm nada a ver com os chocolates que estamos acostumados a comprar na padaria. Como são chocolate puro, sem gordura hidrogenada,  que devem ser degustados com calma e prazer”, diz Andressa, cujos ovos de origem, salpicados com ouro custam R$ 410 (1 kg). Uma versão ainda mais sofisticada, com a casca recheada de marzipã e mini-ovos de diferentes origens dentro pode sair quase R$ 1 mil. Mas tal preciosidade só é feita por encomenda. “Esse ovo é realmente muito especial”, confirma a chef, que vê suas vendas aumentarem até 500% na Páscoa. Tudo para consumo pessoal, de amigos ou familiares. “No fim do ano é que as vendas para pessoas jurídicas crescem”, completa.

Na belga Neuhaus, o crescimento das vendas nessa época do ano também é forte, inclusive para os ovos mais caros. No caso, o ovo de 750 g de chocolate ao leite ou amargo, recheado com bombons da marca, o que pode incluir os flocados com ouro, que sairá R$ 450. “As pessoas não se incomodam em pagar caro porque sabem que se trata de um produto diferenciado e com tradição”, diz Mirella Ranzini, gerente da loja no shopping Iguatemi de São Paulo.

Ali, ela também vê crescer a procura pelos chocolates de origem. No caso os feitos com cacau tipo occumari, vindo da Venezuela; o tipo forasteiro, vindo de São Thomé, ou os produzidos com cacau do oeste africano e de Madagascar. Cada barra de 80 g dessas especialidades que podem ser montadas numa cesta para presente sai por R$ 35,50. “O chocolate está seguindo a mesma trilha do vinho. As pessoas estão apurando o paladar e se especializando nas diferentes variações do produto”, diz ela.

A afirmação tanto é verdade, que na Sweet Brasil, a cada ano um chef de cozinha é chamado para dar seu toque de mestre nos ovos da linha Chocô du Chef. A eleita esse ano foi Leila Kuczynski, do restaurante Arábia. Em seu ovo com toque árabe ela acrescentou casca de chocolate amargo recheada com Amaridin (pasta de damasco) e bombons de Halawi (creme de gergelim) e crocante de pistache e amêndoas. O doce assinado sai por R$ 85 (380 g).

Para quem não abre mão de um toque dourado, a casa também oferece sua versão do Fabergè, com chocolate ao leite pincelado com ouro comestível, recheio de bombons ao leite com massa de avelã, crocante branco, crocante ao leite, gianduia e amargo crocante. Outra alternativa é o ovo Revelador, da Opera Ganache, no qual pela casca vazada é possível antever outro ovo todo coberto por uma película aveludada de jatos de ouro. A venda, só é feita sob encomenda, no café Braverie.

 

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