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Tesouras que valem ouro
Por Inês Salles
Despontam no mercado da beleza profissionais com talento especial e agendas disputadíssimas. Os "super cabeleireiros" emprestam seus nomes para salões, linhas de cosméticos e capas de revistas.
O Brasil já é o quarto maior consumidor de cosméticos e produtos de perfumaria do mundo. Só fica atrás da França, do Japão e dos Estados Unidos. Na última década, a média de crescimento do setor tem se mantido em 10% ao ano. Ao mesmo tempo, os salões de cabeleireiros se especializaram e expandiram seus serviços atingindo o patamar de "spas de luxo". O cliente encontra, em um só lugar, cuidados para os cabelos e para os vasos linfáticos, por exemplo.
A explicação para esta expansão está na economia, mas também nas mudanças comportamentais da sociedade brasileira. Por um lado, o poder aquisitivo da parcela mais rica da população cresceu 30% na década de 90. Hoje, cerca de 105 mil brasileiros possuem renda familiar acima de R$50 mil mensais. Por outro, há uma preocupação maior com a aparência. Os tratamentos estéticos são agora a terapia mais procurada para levantar a auto-estima - não importa quanto custe para o bolso do estimado.
Diante desta nova realidade, os profissionais da beleza ganharam status. Com o 'boom' das celebridades, promovido pela imprensa paparazzi e pelos reality shows, cabeleireiros e maquiadores ganham espaço para divulgar seus talentos.
Um dos nomes de destaque é o de Wanderley Nunes. Dono da marca W, ele vive dividido entre seus salões e ainda cuida da caracterização dos personagens das novelas da Rede Globo. Os elogios vêm de todos os lados. A top Gisele Bündchen já chegou a dizer que ele é "o melhor cabeleireiro do mundo". Não é à toa que para conseguir suas tesouradas é preciso disputar um espaço na agenda lotada e estar disposto a gastar cerca de R$300,00.
O sucesso profissional é resultado de muita determinação. Quando criança, no Paraná, Wanderley engraxava sapatos na barbearia do pai. Aos 14 anos, mudou-se para São Paulo e passou a cortar cabelos em domicílio. Depois de um período no Rio de Janeiro, abriu, em 1988, seu primeiro salão, em São Paulo.
O Studio W cresceu tanto que já atende em quatro endereços diferentes, um deles em Campinas, e conta com uma equipe de mais de 300 funcionários. "O W tornou-se símbolo de qualidade. É fácil identificar na rua quem é nosso cliente", diz Wanderley. O que os mais de 400 clientes diários procuram é atenção e personalidade: "A procura cresceu porque os serviços estão mais direcionados. Eu gosto mesmo é de cortar o cabelo de quem sabe o valor do meu trabalho. Até hoje me emociono quando vejo que fiz uma mulher ficar linda", explica.
Em 2001 foi a vez de Celso Kamura se firmar no mundinho dos 'hair stylists', cuidando das madeixas da prefeita paulistana Martha Suplicy. O ingresso na área foi por acaso. Ele conta que adorava fazer maquiagens e um dia, há 30 anos, recebeu o convite de um amigo para trabalhar em um salão pequeno, no bairro do Ipiranga. O aprendizado foi rápido e a naturalidade no manejo das tesouras logo impulsionou a carreira.
Hoje ele chefia uma rede de profissionais que, além de atender a clientela exigente do salão C. Kamura, presta consultoria para revistas de moda e estúdios fotográficos. Ele também dirige o desenvolvimento de uma linha de produtos para cabelos e maquiagem que carrega seu nome.
O crescimento de seus negócios, ele garante, é resultado da dedicação personalizada a cada cliente. São cerca de 150 pessoas entrando e saindo do salão todos os dias, gastando de R$200,00 a R$400,00 em poucas horas, e todas parecem sair satisfeitas. "Meu objetivo é ver minhas clientes sempre vaidosas!", diz. As oportunidades também vieram conforme observou uma mudança na postura da população: "as pessoas estão investindo mais porque percebem a importância da aparência na vida profissional e social", completa.
Neste "top" dos mais disputados também está Marco Antonio de Biaggi. Sua trajetória profissional vai de vendedor de doces a empresário, dono de um salão com 2 mil m2 e de uma linha de cosméticos exclusiva. O cabeleireiro firmou-se com o título de "rei das loiras" em 1995, com a produção da primeira capa de Adriane Galisteu para a revista Playboy. Além da apresentadora, sua seleta lista de clientes tem nomes como Raica Oliveira e Daniela Cicarelli.
Há 17 anos Biaggi assina produções em revistas de moda e beleza. Seu nome também promove produtos de grandes marcas como a Avon e a Kerastase. O salão M.G Hair Design conta com 158 funcionários para atender um público de quase 350 pessoas diariamente. Os mimos para os clientes vão desde o Ice Tea na recepção, até o atendimento exclusivo com o colorista Joha Antero, treinado na escola Daniel Galvin, em Londres.
Os "super cabeleireiros" vêem agora no reconhecimento uma responsabilidade. São eles que ditam a moda dos makes de gente sempre exposta ao público. Satisfazer os desejos vaidosos que eles mesmos despertaram não é tarefa fácil. Estes profissionais das tesouras de ouro precisam estar sempre atualizados e impecáveis na técnica. Além de fazer cursos e participar de congressos no exterior, eles têm de garantir material de primeira linha e muita, mas muita sensibilidade.
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