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Sapataria de alta costura
Por Juliana Bianchi

A localização no decadente bairro da Consolação não é das mais atraentes, como também não o seria se tivesse continuado na Rua Barão de Limeira, onde nasceu. A vitrine mal iluminada e estreita, com pouco mais de 1,5 m de frente, também não ajuda a criar uma atmosfera luxuosa. Mas esse tipo de 'anti-luxo' pouco incomoda os fiéis clientes que 'ano vai, ano vem' voltam para encomendar novos pares de sapato na Busso. Criada há mais de 70 anos por Dino Busso, a sapataria é das poucas que ainda hoje resistem à facilidade da pronta-entrega e da agilidade da fabricação semi-industrial para manter-se fiel à confecção de sapatos artesanais, feitos sob medida. "Até tenho alguns prontos, mas é mais para servir de modelo. Não vale a pena levar", diz Mario da Costa Carneiro, que há 22 anos administra a marca.

Como numa espécie de alta costura voltada aos pés masculinos, cada par de sapato Busso nasce a partir da cuidadosa medição dos pés do cliente, tirada com antecedência em data e hora marcadas. É desse trabalho com papel, lápis e fita métrica que surgem moldes de madeira personalizados, que ajudarão na confecção dos modelos escolhidos, sejam eles mocassins de couro francês, sapatos clássicos de couro certificado de jacaré ou avestruz, autênticos brogues (estilo inglês) ou botas de montaria. E para que os clientes não tenham de se incomodar de repetir a operação, a loja se encarrega de guardar ali mesmo todo os moldes já feitos, que somam 60 mil pares. "Não jogo nenhum fora, mesmo se a pessoa morrer", conta Carneiro.

É por manias como esta que está por lá, até hoje, o molde dos pés de Jânio Quadros, Franco Montoro e Ronald Golias. Além, é claro, de exemplares de clientes bem vivos como os homens da família Diniz, Chiquinho Scarpa, Clodovil e o ministro da Justiça Marcio Thomas Bastos. Guardada a 'sete-chaves', a lista mantém brasileiros de todos os cantos do país, além de americanos e italianos apaixonados pelo produto. "Os pés dos estrangeiros são mais finos e longos do que os dos brasileiros. É por isso que um sapato feito no exterior, às vezes, pode não calçar bem", observa o atual proprietário.

Segundo ex-funcionário a tomar a frente do negócio após a morte do fundador no início da década de 50, Carneiro preocupa-se com o futuro da loja. "Tenho dois filhos formados, que certamente não vão tocar isso aqui. Ninguém mais quer ser sapateiro e a tendência é que esse serviço morra comigo", lamenta ele. Foi justamente pelo desinteresse da família Busso que os funcionários assumiram a loja. Primeiro, foi a vez de Giovanni Perugini, que extinguiu a linha feminina da marca, e depois Carneiro conservou esta característica. "Gino - como era conhecido Giovanni - era especialista em modelos masculinos e botas, então abriu mão da clientela feminina", lembra Carneiro, que após a morte de Gino também não quis se arriscar a voltar no tempo ou abrir ao menos uma filial. "Nem pra Daslu, se me chamassem, eu não iria."

Aliás, mudar as regras do time que está ganhando é uma expressão fora do vocabulário da Busso. Há décadas a loja mantém o mesmo fornecedor de couro francês - que pode ser facilmente identificado nas caixas amontoadas no chão - e o mesmo moldador, para não perder a qualidade. Se na equipe de artesãos houve mudança, foi apenas porque ainda não se consegui parar o tempo. "Antes éramos mais homens cortando, costurando e montando os sapatos. Hoje estamos em apenas seis trabalhando em casa - e olha que tem gente que mora em Campinas, Salto, Lorena, Caçapava -, para dar conta da produção de cerca de 40 pares ao mês."

Cada par leva pelo menos dois dias de trabalho ininterrupto para ficar pronto e não sai por menos de R$ 1.200,00. Uma bota de montaria chega a custar R$ 2.600,00. Os valores são comparados aos de marcas reconhecidas internacionalmente, como Salvatore Ferragamo e Bali, com um diferencial incomparável: cada sapato Busso sai com o número do seu molde gravado na sola. Os fregueses mais cuidadosos ainda têm a opção de solicitar uma cópia articulada do molde de madeira para cada par. A manutenção da forma dentro do sapato ajuda a conservar ainda mais o produto que, mesmo em pés descuidados, não durará menos de dez anos. "Tem cliente que pode morrer e nascer de novo que ainda vai ter sapato Busso suficiente para nunca mais ter de comprar um só par", diverte-se Carneiro, que acompanhou na sapataria a tradição de comprar passando de geração em geração. Pena que a função não tenha o mesmo prestígio entre os jovens artesãos.

Sapataria Busso
R. Major Sertório, 452, Consolação
Tel: (11) 3129-5544/ 3256-9435

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