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O que a Bottega tem?
Quando o produto é o próprio logotipo
Por Luciana Stein
Reprodução |
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Uma das famosas bolsas
da Bottega Veneta,
em couro trançado |
Curiosamente, poucas datas foram tão emblemáticas para a indústria do Luxo
na história recente como o 11 de setembro de 2001. Assim como Nova Iorque
perdeu seu mais importante logotipo naquele dia, a indústria do Luxo iniciou
um profundo questionamento sobre o uso das grandes insígnias em seus
produtos - um raro sinal de comedimento de um setor no qual a exposição do
símbolo de status era então a regra. Pois se você quer saber um pouco sobre
o espírito de uma época, repare nas bolsas. Se as bolsas que marcaram épocas
anteriores eram as baguetes da Fendi com superfície cravejada de logotipos,
por volta de 2001, os logotipos começaram a ser tratados com certa ironia -
como nas criações da Vuitton que tiveram seu monograma marrom rabiscado pelo
artista americano Stephen Sprouse e se tornaram febre no verão 2001.
Não por acaso, o ano marca o re-início de uma marca pequena que não possui
logotipo (seu nome é escrito por extenso no interior de seus produtos), a
Bottega Veneta. Discreta, a grife italiana domina hoje as páginas iniciais
das principais revistas de moda internacionais e inaugurou sua maior loja em
setembro em Nova Iorque.
Bottega Veneta - loja veneziana em italiano - não foi criada em 2001. Nasceu
em 1962, não em Veneza, mas em Vicenza, cidade reconhecida por abrigar até
hoje hábeis ourives. Desde seu nascimento, a Bottega ficou conhecida por
tratar o couro usado em sapatos, bolsas e acessórios com o mesmo cuidado com
que um artesão manipula filetes de ouro. Seu maior patrimônio era - e
continua sendo - o "Intrecciato", o couro trançado. Para a Bottega, o
desfile dos logotipos de maneira óbvia era considerado um tipo de traição ao
princípio do produto feito à mão, que é único e pessoal. Uma posição
respeitável e digna - você poderia dizer desse lema da grife. A pureza desse
princípio e do seu apelo nessa época em que a vontade de discrição emergiu
com a caída das torres americanas foi percebida pelo diretor criativo do
Grupo Gucci, Tom Ford. Em julho de 2001 o conglomerado de Luxo comprou 66%
da Bottega. Três anos depois dessa data - considerada o renascimento da
Bottega - a marca inaugurou sua grande loja de dois andares na Quinta
Avenida em Nova Iorque. É um belo exemplo de como crescer sem perder a aura
de boutique. Nela, cada um dos puxadores das portas é feito em couro - e à
mão - os tapetes são de lã artesanal da Nova Zelândia e há uma sala dedicada
a artigos feitos sob medida em couro para homens e mulheres. Tem clima de
pequena butique dentro de uma imensa loja. "O DNA da empresa foi estudado e
uma volta à origem foi traçada" diz Amnon Armoni, professor de Marketing
Internacional do MBA em Gestão de Luxo da FAAP sobre o império dos sapatos
de camurça e das bolsas de couro trançado. Armoni lembra que, mesmo com um
perfil discreto, a Bottega foi tomada por celebridades como Oprah e
Jennifer Lopez, que foram ao ar com produtos seus.
Desde que entrou no Grupo Gucci, a marca expandiu-se na Itália e no Japão -
além dos Estados Unidos - e teve 41% de aumento no seu faturamento.
Crescendo silenciosamente, ela continua sem alardear seu logotipo.
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