<< MATÉRIAS ANTERIORES

Cabeça assinada

Por Ana Julia Prieto

Dizem que o cabelo é a moldura do rosto. Mas quanto vale essa moldura?Alguns cabeleireiros internacionais parecem ter decidido que por ser um acessório que ajuda a construir a imagem 24 horas por dia, não podendo ser trocado como a roupa, um cabelo bem cortado pode custar uma pequena fortuna. Que o diga o jogador de futebol David Beckham, que gastou nada menos do que US$ 2.440 por seu último corte de cabelo. O responsável pela transformação –diga-se de passagem, nem tão radical assim -, foi o inglês Ben Cooke, que há mais de sete anos cuida das madeixas de Victoria Beckham.

Proprietário do salão Lockonego, em Chelsea (Londres), Cooke costuma cobrar 195 libras por um corte feminino (90 libras o masculino) e 190 libras pelas luzes, mas digamos que nesses valores não estão agregados todos os mimos, tratamentos de luxo e, nesse caso específico, o próprio deslocamento do profissional de Londres para Los Angeles, onde o casal Beckham vive agora. "Ben viaja para qualquer lugar do mundo para atendê-los", contou seu sócio Jonathan Long.

Mesmo no salão, esses valores podem triplicar facilmente se pensarmos em sua definição oficial: “um local de descanso para clientes que não precisam apenas de um corte de cabelo maravilhoso, mas também um delicioso lanche do restaurante anexo, o Eight over Eight, e uma garrafa de vinho, tudo com uma boa dose de charme e humor”. E não pense que com tanto glamour, a água e o cafezinho que lhe forem servidos não aparecerão na conta - detalhe que quem opta por ir num local desses nem se incomoda. Afinal, ter um cabelo com assinatura é quase como ter um par de Jimmy Choos ou a última bolsa Prada.

 O próximo lance do cabeleireiro, que também é o queridinho de Gwyneth Paltrow e Minnie Driver, é abrir uma filial nos Estados Unidos, onde Katie Holmes e Jennifer Lopez já sinalizaram interesse por suas tesouradas. Mas não espere que ele  esteja sempre no salão. Além de só trabalhar com hora marcada, Cooke ainda divide seu tempo com as passarelas, onde coordena pessoalmente os cabelos das modelos que desfilarão para Valentino, Dolce & Gabbana e Versace.

O mesmo acontece com Orlando Pita, uma espécie de Marco Antônio de Biaggi americano. Ele se gaba por fazer o cabelo das principais capas e matérias da Vogue, W, Harper’s Bazaar e Allure, além de trabalhar com fotógrafos como Richard Avedon, Irving Penn and Mario Testino, e nos desfiles da Prada, John Galliano, Michael Kors e Christian Dior. Assim, ter em seu currículo nomes como Madonna, Janet Jackson, Gwyneth Paltrow e Julianne Moore é apenas um detalhe.

Considerado o cabeleireiro mais caro de Nova Iorque, este cubano de 45 anos cobra US$ 800 por suas tesouradas no salão Orlo, inaugurado em 2005 no Meatpacking District. “O cabelo é a primeira coisa que as pessoas notam em você. É possível comprar um monte de roupa, mas você usa o mesmo cabelo todos os dias, então ter um bom corte vale a pena”, afirma Pita, sem constrangimento de cobrar por um corte o mesmo que um aluguel na cidade mais cara do mundo. O local, um prédio discreto, sem porteiro, com interfone de botões amarelados e pias banhadas a ouro, só atende com hora marcada. Ainda assim será preciso esperar por meses para conseguir um espaço na agenda do próprio Pita, que trabalha intercalando tesouradas esparsas e movimentos rápidos, como se fosse um artista de vanguarda.

Para o brasileiro Ricardo Cassolari, trata-se uma mistura do poder aquisitivo local e do glamour que o profissional já atingiu no meio. Isto é, uma questão de ego pessoal mesmo. “Ele alcançou o estrelato lá, e tem gente que pode pagar por isso, então acaba sendo uma forma de selecionar o público”, diz Cassolari, que cobra em média R$ 240 por um corte. “Não dá para comparar o nosso mundo ao deles”, completa.

Marco Antônio, que cobra R$ 400 o corte – valor que facilmente pode subir para mais de R$1000 se incluir escova e coloração – não pensa bem assim. “Eles, assim como eu, vendem sonhos. E sonho não tem preço”, diz o cabeleireiro, que conhece de perto o trabalho de todos esses profissionais.

Se nomes como Pita e Cooke fizeram fama e elevaram à estratosfera o preço de seus serviços pura e simplesmente por terem virado os queridinhos de estilistas, editores de moda e famosos, há outros, mais experientes, que aproveitaram seu ápice de celebridade para agregar ainda mais valor a sua marca pessoal. Caso de Frederic Fekkai e Sally Hershberger.

Com quatro salões espalhados pelos Estados Unidos (dois em Nova Iorque, no Soho e na 5ª Avenida; um em Palm Beach e um em Bervely Hills), o francês Fekkai oferece um pouco de tudo. No maior salão da rede, localizado dentro da loja Henri Bendel, na 5ª Avenida, é possível conectar-se à internet enquanto faz tratamentos para a pele, massagem com produtos vindos da Provence, manicure, maquiagem by Chanel, além de tomar lanchinhos fornecidos pelo afamado chef Payard e cortar o cabelo – uma ou duas vezes por mês - por não menos de US$ 400. Na agenda desse profissional, que teve seu ápice nos anos 90, estão Liv Tyler, Kim Basinger e Holly Hunter.

Com parceria assinada com a Chanel, em cujo prédio teve seu salão há uma década, Fekkai ainda pode se gabar de ter seu nome estampado em uma linha de produtos para cabelo de alta qualidade. A linha inclui shampoo, condicionador, máscara, gloss, e acessórios de luxo. “Estou sempre focado em completar a imagem de minhas clientes, seja com um bom corte de cabelo, cor, óculos, acessórios e roupas. Tudo deve ter sinergia para criar um estilo único”, diz o cabeleireiro.

Sally Hershberger não pensa muito diferente. Responsável pelos “mil vezes copiados” cortes de Meg Ryan e Michelle Pfeiffer, ela possui dois salões de beleza (um em Los Angeles e o principal no Meatpacking District, em Manhattan), uma linha de produtos para cabelo e pele, em parceria como o The Face Place – um dos mais respeitados institutos de beleza dos EUA – e uma grife de jeans e camisetas chamada Shagg. O corte? US$ 600, valor que ela cobra muito tempo antes de Pita aparecer.

Filha de um petroleiro do Kansas, Sally não é apenas a cabeleireira das celebridades:  ela mesma se considera uma. Sempre rodeada de luxo – a cabeleireira  atende com um relógio de ouro cravejado de diamantes da Hermes -, Sally transferiu para seu studio, localizado entre as lojas de Stella McCartney e Alexander McQueen, um pouco de seu mundo. Nas paredes do loft pintado de cinza, como num backstage de desfile de moda, há quadros originais de Andy Warhol e tevês de plasma. Uma filial do spa The Face Place completa a gama de serviços que inclue alongamento de cabelo no valor de até US$ 3 mil. “Eu detestava dizer que era cabeleireira, mas hoje em dia parece que estamos ganhando mais dinheiro do que médicos e advogados”, diz Sally, sem se espantar com a inversão de valores.

SERVIÇO

Orlo
34 Gansevoort St., New York
212-242-3266

Lockonego
394 Kings Road, London, UK
020-7795-1798

Frédéric Fekkai Fifth Avenue
712 Fifth Ave. , 4th fl, New York
212-753-9500

Sally Hershberger Downtown
425 W. 14th St., 2nd fl, New York
212-206-8700

 

<< Voltar