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Dou-lhe uma, dou-lhe duas... é vinho
Por Ana Julia Prieto
Quanto vale um Vega Sicília ou um Romanée-Conti 1989? E um Mouton Rothschild ou um Château Margaux 1996? Se você os encontrar à venda no mercado, prepare-se para certamente pagar uma fortuna. Mas se ainda assim estiver disposto a investir na magia e prazer desses verdadeiros medalhões do mundo do vinho será preciso muita sorte para comprá-los. Escondidos a sete chaves em adegas particulares, vinhos como esses, de renome internacional e safras especiais, só costumam trocar de mãos através de leilões, onde são disputados arduamente por experts e abastados curiosos recém-chegados a esse universo.
Ainda fraco no Brasil, o mercado de leilões de vinho fez recentemente mais uma tentativa de estimular os consumidores a se adequar a esse formato de compra. Responsável pela "curadoria" dos lotes, o sommelier Marcos Campioni, do restaurante Villa Alvear, em São Paulo , percorreu algumas dezenas de adegas particulares na cidade - todas indicadas por clientes e amigos -, para garimpar as preciosidades ofertadas no início de setembro. Entre elas, garrafas de Château D'Yquem, Lafite e Petrus. Vinhos que sozinhos valem até R$ 15 mil, dependendo da safra e das condições de guarda. Entretanto, este foi o valor máximo atingido por um só lote, na ocasião.
"As pessoas ainda têm medo de se expor, no Brasil. Não querem comprar um lote de R$ 20 mil ou R$ 30 mil e sentir que os outros as olham com espanto. O vinho é uma cultura nova, mas está crescendo muito rápido", afirma Campioni, que ainda tem mais de 50% de seu público formado por curiosos. Entre os compradores estão grandes empresários, publicitários respeitados e presidentes de multinacionais. "Mas em comparação com os leilões internacionais, os daqui ainda são lúdicos. Com lances que vão e vêm em disputas realizadas, muitas vezes, entre amigos", diz.
De fato, em números, os raros leilões de vinho promovidos no Brasil são infinitamente mais tímidos do que os realizados no exterior. Só na Sotheby's, uma das mais respeitadas casas leiloeiras do mundo, em 2005, as vendas desse segmento giraram em torno de US$ 29 milhões, 40% a mais que no ano anterior. Encabeçado pela inglesa Serena Sutcliffe, o departamento de vinhos da Sotheby's já viu um lote com 12 garrafas de Romanée-Conti 1989, avaliado entre US$ 30 mil e US$ 50 mil, ser arrematado por um investidor americano por US$ 85,187, - valor recorde para a safra, nesse formato de compra -, e um único leilão histórico, o The Millennium Wine Cellar Auction, realizado em 1999, atingir um total de US$ 14,4 milhões.
Aos 61 anos, Serena tem como rotina viajar o mundo atrás de raridades em adegas particulares e visitar os mais importantes produtores de vinho do mundo para avaliar, em primeira mão, as próximas safras que certamente serão ofertadas sob seu martelo, em alguns anos. Segundo ela, ainda que as pessoas a procurem ofertando vinhos raros, seu trabalho é conhecer essas pessoas e a reputação de suas adegas, para garantir a procedência e qualidade do vinho que será leiloado. "O mercado de vinho é como de arte. É preciso ter as conexões e informações certas, na hora certa", diz ela, que costuma aproveitar três grandes momentos para angariar preciosidades etílicas: morte, dívida ou divórcio. "As pessoas estão mais suscetíveis a abrir mão de seus bons vinhos nesses momentos", explica Serena, que passa grande parte do tempo em Nova York , de onde coordena uma equipe de 16 profissionais nos escritórios de Londres e Manhattan. "É lá que estão as grandes fortunas do mundo e onde vi as adegas mais impressionantes", diz ela.

Reprodução
Segunda mulher na história a obter o título de Master of Wine, graduação máxima no universo do vinho, Serena costuma atender pessoalmente os maiores colecionadores do mundo antes de cada um dos 12 leilões anuais da empresa. Segundo ela quem se propõe a comprar vinhos desta forma deve ficar atento a pequenos detalhes da safra e da região, bem como a idade da garrafa, - que deve corresponder ao período em que o vinho foi datado -, e sua cápsula, - que tem de ser da mesma cor e tipo esperado. Isso porque, não raras vezes pode-se comprar gato por lebre, principalmente quando se trata de Bordeaux de safras históricas como 1945, 1947 e 1961. "É preciso muita experiência para identificar um vinho falso. Há desde rótulos que são simples fotocópias dos originais aos que são deliberadamente tratados para parecerem velhos", avisa a especialista.
Por isso sempre que os lotes chegam a casa, Serena e seus orientados têm o cuidado de abrir todas as caixas para garantir que não há outra coisa no fundo e que todas as garrafas estão igualmente bem conservadas e contêm o mesmo vinho. Mas antes disso, para aceitar incluí-lo em seus leilões, a equipe visita a adega de procedência para verificar o acondicionamento. "Não posso falar por outras casas leiloeiras porque não sei como trabalham, mas na Sotheby's somos realmente muito cuidadosos com isso", diz ela, que em recente viagem ao Brasil, aproveitou para conhecer de perto a adega de alguns clientes brasileiros em São Paulo e Rio de Janeiro. Além, é claro, de estreitar relações com potenciais compradores locais.
"Os brasileiros têm muito interesse nos bons Bordeaux tintos, em especial os Petrus, então a porcentagem de brasileiros aumenta quando temos bons lotes desses vinhos à disposição", afirma Serena. Segundo estimativas do mercado, cerca de 10% de sua carteira de clientes é formada por grandes empresários e colecionadores brasileiros. Percentagem que pode crescer no próximo leilão como resultado da passagem da especialista por aqui.
Se, assim como em outras partes do mundo, aqui também há especialistas e verdadeiros amantes do vinho, que sabem o valor do que bebem, grande parte dos que começam a comprar vinhos raros o fazem como uma compra aspiracional, para reforçar sua imagem sofisticada em um determinado grupo ou classe social. " Alguns realmente começam suas coleções para impressionar, mas aos poucos vão bebendo mais e acabam apurando o paladar", explica Serena, que em 15 anos de profissão encontrou apenas um colecionador da Califórnia que não bebia vinho algum. "Ele era muito cuidadoso com seus vinhos mas realmente só estava investindo. Mas foi um único caso em anos", conta ela, ressaltando que a situação já diferente entre os asiáticos, que querem ter apenas vinhos top para servir a seus convidados. "É uma questão cultural, de respeito. Eles acreditam que se servirem algo menor, o convidado poderá se sentir ofendido", completa.
Mas ela lembra que existem muitos outros vinhos a se olhar com carinho além dos Petrus e dos Margaux, principalmente na região de Champanhe, onde a capacidade produtiva da terra não poderá acompanhar por muito tempo a expansão do interesse do público. "Talvez o preço das cuvés de prestige fique realmente muito mais alto com a procura, mas é preciso lembrar que ainda existem centenas de pequenos produtores e cooperativas desconhecidos que fazem vinhos de boa qualidade a preço razoável", indica.
E já que o grande objetivo de quem tem uma adega é ter sempre a mão um bom vinho para beber, vale lembrar que é possível ter bons vinhos de US$ 25 para se tomar em casa, como alguns argentinos ou um tradicional Beaujolais, indica Serena. "O problema é que um colecionador, seja ele de vinho ou de quadros, vicia facilmente em ter seu objeto de prazer e acaba comprando muito mais do que precisa ou tem espaço para guardar. Até que um dia se dá conta de que mesmo se viver 100 anos não conseguirá tomar tudo, então pensa, 'Meu Deus, eu preciso vender parte disso', e nos procura", conta ela que, ainda que não se considere uma "wine snob", elegeria um Bordeaux 1995 ou um 1996 para comprar no momento. Se a pedida fosse para escolher sua bebida para o resto da vida, ela não titubeia, quer champanhe.
Os interessados em participar de um leilão de vinhos na Sotheby's podem fazê-lo de três formas: ao vivo, em Nova York ou Londres, por telefone como fazem os grandes compradores, ou enviando uma proposta por fax, dias antes. Mas Serena lembra, "estar na sala de leilão durante o evento é fantástico porque você pode mudar de idéia a qualquer momento."
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