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Artesanato em extinção
Alfaiates preocupam-se com a falta de novos aprendizes e acreditam que a profissão pode acabar
Por Juliana Bianchi
Esqueça os ternos Ermenegildo Zegna e Giorgio Armani que estão no armário. Em tempos de massificação, para se destacar é preciso ir ao extremo da exclusividade. Sim, estamos falando da volta ao artesanal. E se o assunto é roupa masculina, nada melhor do que retornar aos grandes mestres da alfaiataria sob-medida, alguns só conhecidos entre os entendidos. Mas se o serviço hoje já é visto como artigo de alto luxo, no futuro será tratado como verdadeira raridade. Com o desinteresse dos jovens em aprender a profissão e a idade avançada dos mestres hoje espalhados pelo mundo, estima-se que em pouco mais de duas décadas o serviço terá desaparecido e os poucos alfaiates de primeira linha que sobrarem estarão cobrando pequenas fortunas por seus préstimos. Algo muito além dos US$ 7 mil já cobrados em média.
"Na Europa ainda se encontram jovens dispostos a se dedicar a esse ofício artesão, mas nos Estados Unidos, os alfaiates certamente desaparecerão com o tempo. Aqui ninguém quer aprender e os que estão lá não têm a menor intenção de imigrar para a América", conta o alfaiate italiano Joe Centofanti, de 87 anos. Estabelecido há mais de 30 anos na Pensilvânia (EUA), onde atende pessoalmente todos os clientes - entre eles presidentes de grandes corporações americanas, caso do empresário Dale Lee Petrovitch, dono da Radio Communications Services, uma das maiores empresas de rádio bidirecional dos Estados Unidos - Centofanti garante que os detalhes e cuidados na hora de se fazer um terno sob-medida são tantos, que até se entende a dificuldade em encontrar novos pupilos.
O serviço meticuloso escondido por trás de uma peça que à primeira vista parece ser relativamente simples, costuma exigir ao menos três provas antes de ser entregue quase três meses depois de solicitado, o que faz clientes ansiosos se afastarem logo de cara. Mas é preciso lembrar que a perfeição exige paciência. Nesse período é preciso saber tirar medidas - para se fazer um terno com caimento perfeito é necessário saber o exato comprimento de cada braço e de cada perna, a distância dos ombros de ponta a ponta e do meio das costas à ponta, a circunferência de cada braço, punhos, pescoço, cintura e quadril -, fazer moldes de papel, cortar as diferentes gramaturas de tecido, alinhavar as partes sem deixá-las enrugadas, criar sutis variações de design que favoreça os diferentes biotipos que aparecem em seus ateliês, e adequá-las às preferências: um, dois ou três botões, quantos bolsos internos, corte americano, inglês ou italiano, bem estruturado ou mais natural, lapela larga ou alongada.
E como faz questão de fazer tudo sozinho - do molde ao corte e costura, a escala de produção de Centofanti é baixa. A cada semana, apenas cinco ternos são produzidos a preços que começam na casa dos U$ 3 mil (R$ 7 mil). "É preciso olhar o corpo com cuidado e entender suas pequenas imperfeições", afirma Centofanti. "Mas tiro vantagem do longo tempo de convivência com meus clientes, o que me permite saber muito mais sobre seus estilos do que as medidas podem dizer. Um alfaiate não adquire essa sensibilidade do dia para a noite", completa Centofanti, expondo mais uma dificuldade em se fixar no meio.
Estabelecido em Los Angeles desde a década de 50, Giacomo Trabalza, assim como o amigo não menos afamado Joe Centofanti, entrou para a profissão ainda menino, na respeitada escola de alfaiataria Rocco Aloy, que conta com diversas unidades na Itália. Ali, ambos aprenderam os macetes da profissão antes de imigrarem para os Estados Unidos. "O importante é fazer o cliente parecer mais magro", afirma Trabalza, que aos 83 anos ainda leva a sério a máxima dita por seu primo Tão Trabalza, que lhe iniciou na profissão em Milão. E ele sabe do que está falando, afinal, há mais de 20 anos tem de lidar com o corpo nada discreto do governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger.
Em alguns casos ainda mais especiais, a parceria com o alfaiate é tanta que a atribulada agenda abre espaço para uma seção de medidas e provas em casa ou no escritório, como costuma fazer Antony Giliberto, que garante já ter feito ternos para Bill Gates, George W. Bush e o ator James Gandolfini, intérprete de Tony Soprano na séria Família Soprano. Assim, não é difícil o bom alfaiate virar uma espécie de confidente para quem é possível revelar pequenas imperfeições físicas e confessar o quanto aquela gordurinha extra na cintura incomoda. "Sem dúvida todo bom alfaiate tem de conhecer muito bem seus clientes para entender suas preferências e necessidades e conseguir acomodar todas elas no terno", explica o alfaiate ítalo-americano William Fioravanti, um dos profissionais mais requisitados pelos mega-empresários e homens influentes dos Estados Unidos desde a década de 50.
De posse de todas essas informações, chega a hora do profissional mostrar seu lado 'meio artista', 'meio cirurgião plástico'. Com ajustes localizados, pences e doses extras de tecido, é possível fazer pequenos milagres para melhorar a aparência do confidente, que a essa altura já ganhou de lambuja um personal stylist, uma vez que indicar a melhor ocasião e combinações de gravata e camisa para cada modelo faz parte do pacote.
Mas se o pesar de não encontrar viva alma disposta a se tornar aprendiz aparece no discurso de todos que acabam tendo de contratar apenas alfaiates com mais de 50 anos de profissão para lhes ajudar a dar conta dos pedidos, ao menos Fioravante consegue ver uma luz no fim do túnel. Para ele a esperança vem da China e América do Sul. "Tenho treinado muita gente boa desses lugares, além é claro, de italianos", diz ele, confiante. Um caso raro no setor.
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