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Turismo brasileiro começa a descobrir o novo luxo
Por Juliana Bianchi
Esqueça a exuberância de viajar para do Palazzo Sasso, na Costa Amalfitana, a riqueza do Château de Bagnols, na França, ou a imponência de estar no Mandarin Oriental de Nova Iorque. O novo luxo pede mais do que o mero conforto rodeado de bons produtos e ambientes neutralizados por tudo aquilo que o dinheiro pode comprar. Com a valorização da experiência, isto é, da vivência de momentos singulares como tradução do verdadeiro luxo, o turismo voltado a esse púbico começa a entender que mais vale oferecer ao cliente uma experiência arrebatadora, ainda que em território nacional, do que uma volta ao mundo pasteurizada.
Foi pensando nisso que a agência de viagens Matueté uniu-se ao chef Laurent Suaudeau para criar pela primeira vez destinos gastronômicas de alto padrão com foco na cultura e culinária nacional, até hoje quase inexplorada. "O brasileiro conhece muito pouco de sua cultura gastronômica, seus ingredientes e pratos. Se bobear já rodou todos os restaurantes da Itália para dizer onde está o melhor risoto, mas não sabe onde encontrar o melhor acarajé", lembra o chef, que estará cozinhando pessoalmente em todas as viagens, do café da manhã ao jantar. No cardápio, pratos típicos da região com o toque de sofisticação que se espera das mãos de um mestre-cuca.
Assim, um caldo de piranha pode se transformar num suave velouté do peixe, a ser servido na beira do rio, em época de cheia no Pantanal mato-grossense. A cocada baiana se transforma em gâteau mousse de coco e chocolate com geléia de uísque sob a sobra de um coqueiro à beira-mar, numa praia deserta. E o peixe assado vira um delicioso pirarucu ao molho de tucupi e farinha de ouaruni (espécie de mandioca), num piquenique ocasional armado no meio da selva amazônica, a caminho de uma tribo indígena. "Nosso objetivo é poder proporcionar experiências únicas, que envolvam todos os sentidos - visual, gustativo, táctil e olfativo - para que aquele momento seja tão diferente e completo que nunca mais saia da cabeça das pessoas", afirma Bobby Betenson, sócio da Matueté. "Vamos cozinhar o que houver de mais fresco e típico em cada um dos lugares que estivermos", garante Laurent.
A princípio, a empresa traçou quatro destinos de viagem: Pantanal, Amazônia, Bahia e Angra dos Reis, este último, na verdade, um dos maiores desafios para a empresa. "Nosso cliente provavelmente tem casa ou já foi diversas vezes a Angra, mas dificilmente teve a oportunidade de explorar as riquezas da gastronomia local como estamos propondo", diz Betenson, citando a possibilidade de se fazer uma refeição numa tribo indígena ou acompanhar a pesca do peixe que se vai degustar à noite. "Se pensarmos apenas no conceito tradicional de luxo, o lugar mais luxuoso que esse público pode ir no Brasil sem dúvida é a própria casa dele. É por isso que meu objetivo não está focado apenas no melhor serviço e conforto, mas nas surpresas que podem aparecer no caminho", completa.
Surpresas essas muitas vezes nem mesmo previstas pela equipe, que terá de contar com a mãe natureza para abrilhantar ainda mais as viagens que já prevêem hospedagem em refúgios ecológicos exclusivos, como a pousada Caiman, no Pantanal e o Hotel Fazenda São Francisco de Corumbau, na Bahia, ou a descida do Rio Negro, na Amazônia, em um barco de 106 pés. Passeios de canoa sob a luz da lua, luais regados a champanhe em praias desertas, jantares harmonizados pela Enoteca Fasano em bangalôs armados no meio do manguezal, safáris fotográficos ou a participação em rituais indígenas também fazem parte do pacote de atrações sensitivas daqueles que estiverem dispostos a pagar de R$ 6 mil a R$ 7 mil pelo fim de semana de aventuras gastro-culturais. Valores referentes apenas à parte terrestre.
Mas os gourmets mais arraigados que não esperem louças Noritake ou Limoges em pleno Pantanal ou Amazônia. Já que a idéia é colocar ao máximo o viajante em contato com as riquezas de sua terra, o chef garante que muitas das louças serão angariadas no próprio destino, ainda que a apresentação do prato seja distinta do costume local. "Vamos fazer uma vaca atolada sem atolar a vaca no prato", brinca Laurent, que desde sua vinda ao Brasil em 1980, luta pela valorização e sofisticação da culinária regional. Como diz o próprio folder de apresentação da agência, "ao abrir os olhos para o desconhecido, encontramos uma diferente maneira de estar no mundo."
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