| |

<< MATÉRIAS ANTERIORES
Fumaça rara
Por Juliana Bianchi
O Brasil ainda está longe de figurar entre os dez maiores mercados consumidores de charutos no mundo. Mas nem por isso deixa de ter reservada a cada estação sua cota de caixas e modelos especiais a serem disputados quase que a tapa antes mesmo de chegarem de Cuba. Parte importante na estratégia de marketing da Havanos S.A, estatal cubana que controla toda a produção e comercialização de charutos da ilha de Fidel, o lançamento de edições especiais já se tornou evento esperado entre os apreciadores de todo o mundo. Embasadas em datas especiais, aniversários históricos ou reaberturas de fábricas, as tiragens limitadas podem render caixas diferenciadas aos colecionadores e novos formatos, bitolas (diâmetros) ou tamanhos aos aficionados.
Caso do Partagás Série P2, sucesso de vendas no fim do ano, que trouxe pela primeira vez um charuto desse modelo enrolado em forma de pirâmide, com bitola de 20,64 mm e 1,56 cm de comprimento. Ou ainda do Montecristo Compay, do qual foram feitas apenas 95 caixas em homenagem aos 95 anos do cantor Compay II. Conta-se que ele, que durante anos trabalhou como enrolador de charutos, só fumava esta marca. "Esses charutos nem chegaram oficialmente ao Brasil, mas todo mundo queria experimentar porque as novidades nesse mercado são limitadas", conta Rodrigo Gorga, da tabacaria Lenat.
"As edições especiais funcionam nesse segmento como os perfumes para as mulheres. Assim que uma nova fragrância é lançada, todo mundo quer ter", compara Marco Aurélio Saraceni, diretor comercial da Puro Cigar, importadora oficial dos charutos cubanos no Brasil. Nessas ocasiões, o valor a ser pago é compatível com a exclusividade, e um único puro pode sair por R$ 160, como ocorre com a edição de 125 anos da marca Romeo Y Julieta, cuja caixa de madeira marchetada com 50 charutos está sendo ofertada na Internet por quase R$ 8 mil.
"Costumo dizer que o charuto é, sem dúvida, o produto mais caro do mundo porque para usufruí-lo você literalmente queima dinheiro. Não é como um relógio, por exemplo, que você vai poder passar de pai para filho. Ele vai ser consumido em poucas horas", afirma Beto Ranieri, dono da tabacaria Ranieri Pipes.
Segundo ele, um verdadeiro apreciador degusta em média três charutos por dia, - "mais que isso começa-se a perder a sensibilidade das papilas gustativas e aí vira fumar por fumar", diz ele -, cada qual com sua característica própria para o horário e o acompanhamento. Menores e mais suaves pela manhã, mais potentes e robustos à noite, apreciados, de preferência, junto a um bom cognac.
Mas nem toda a variedade de charutos feitos em Cuba ou na República Dominicana, principais mercados produtores, chegam ao Brasil. Caso das marcas Cabanas (não seriam Cubanas?) (a mais antiga de Cuba, datada de 1810), Gispert (só encontrado na própria ilha e em apenas um formato) e Juan Lopes (criada em 1870).
Não que estas sejam sinônimo de um produto de melhor ou pior qualidade, mas para o apreciador contumaz, a possibilidade de degustar um charuto diferenciado traz um prazer extra às lentas baforadas. "Uma vez degustei um charuto Pre-Castro, - isto é, feito antes da revolução de 1959 -, e confesso que não foi o melhor charuto que provei se levasse em conta apenas o produto em si, mas o fato de ter uma história por traz torna-o um charuto memorável", lembra Ranieri.
reprodução |
|
Davidoff - edição comemorativa de 80 anos |
Quando acondicionado de maneira correta, com ventilação e umidade controladas, o charuto poder ter vida útil superior a cem anos. Raridades como estas, quando surgem no mercado, são comercializadas por preços altos . Por meio de leilões em casas respeitadas como a Christie's uma caixa (com 20 charutos) comemorativa dos 80 anos de Zino Davidoff (fundador da marca, nascido em 1906 e falecido em 1994) chega a ser comercializada por R$ 47 mil. Na mesma casa, algumas caixas da série dos Chateaux (feitas na década de 50, quando a empresa ainda trabalhava com folhas vindas de Cuba) foram leiloadas por R$ 30 mil. Estas, com certeza, serão fumaças dignas de serem guardadas.
<< Voltar

|
|