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Nesta sessão são publicadas matérias sobre o Comportamento do consumidor nos segmentos do Luxo. Informações recentes sobre como o consumidor percebe, compra e utiliza produtos e serviços de luxo, podem ser encontradas aqui.
 
 

Os planos da La Perla para se tornar uma marca global

GESTÃO DE NEGÓCIOS | Moda e Acessórios
Por Patricia Gaspar

Nascida como uma empresa familiar que fabricava roupas íntimas, a La Perla é hoje um negócio que possui diversas marcas e que está se reestruturando para poder operar em escala mundial. A reviravolta começou em 2007 quando 100% das ações da empresa, que pertenciam à família Masoti, foram compradas pela JH Partners.

Jeff Hansen, sócio da JH Partners e diretor do Grupo, disse que até 2013 a La Perla “provavelmente será duas vezes maior e mais rentável do que hoje, com uma presença forte nos EUA e na Ásia”. Segundo Hansen, “estamos hoje na casa dos 200 milhões de euros”.

Hansen, que mora em Bologna, disse que pretende concentrar o posicionamento da marca La Perla e entrar em mercados que ainda não foram explorados. No entanto, para possibilitar esse crescimento será necessário eliminar linhas improdutivas e reduzir custos. Para se ter uma idéia, quando a JH Partners adquiriu a La Perla, apenas cinco das mais de 15 marcas do Grupo geravam lucro. Hoje o portifólio da La Perla ainda sustenta marcas em excesso, mesmo que algumas já tenham sido descontinuadas.

O objetivo da empresa ao desenvolver segundas ou terceiras marcas é ampliar a participação de mercado, atendendo diversos segmentos a partir de uma mesma estrutura de produção. Para tanto, é preciso que a segmentação seja bem feita e que cada marca possua um posicionamento bem definido.

No entanto, marcas de um mesmo grupo com propostas muito próximas, como é o caso do Grupo La Perla, tendem a confundir o consumidor e enfraquecer o posicionamento da marca mãe. Na prática, ao invés de atraírem novos consumidores, as marcas acabam concorrendo entre si. Além disso, os custos gerados são cada vez maiores, já que cada marca possui uma equipe própria de marketing.

Segundo Hansen, o objetivo da reestruturação é otimizar certas operações para que a empresa possa crescer no futuro. “Mas leva algum tempo. Não podemos eliminar nove ou dez marcas da noite para o dia. Precisamos lentamente conduzir os consumidores para outras marcas”, disse o diretor. 

Suzanne Biszantz, CEO da La Perla nos EUA, concorda com a redução do portifólio e diz que o objetivo é crescer de 5 a 10% na América do Norte, atingindo o consumidor de luxo que vê a La Perla como uma marca de moda.

Biszantz também comentou que, apesar da crise econômica, a La Perla ampliará o número de lojas nos EUA em 2009. Atualmente, a La Perla opera 78 lojas no mundo inteiro e está disponível em cerca de três mil pontos de vendas.

reprodução

 
 

Além do que se vê

Exibir objetos de luxo não é prova de riqueza pessoal. Às vezes, pode até indicar o contrário.

COMPORTAMENTO | Moda e Acessórios
Por André Cauduro D’Angelo

Um estereótipo muito difundido no Brasil afirma que há diferenças claras entre o consumo de novos ricos e ricos tradicionais. Os primeiros estariam voltados a demonstrar o poder econômico recém-alcançado e, por isso, procurariam adquirir produtos de luxo chamativos, capazes de identificar seu novo status econômico imediatamente. Os segundos, mais seguros quanto à própria riqueza e condição social, seriam comedidos, optando por produtos discretos e confortáveis, sem ostentação. A validade dessa impressão generalizada nunca foi – e talvez nem possa ser - comprovada empiricamente, mas se percepção e realidade se equivalem, nem seria preciso.

Nos Estados Unidos, três pesquisadores foram a campo tentar verificar a validade de um estereótipo parecido: o de que pessoas com renda inferior investem mais na compra de bens de alta visibilidade, os de luxo entre eles. O motivo seria semelhante ao dos novos-ricos: aqueles menos seguros de suas condições econômicas sentem-se quase compelidos a demonstrar poder monetário. 

Os resultados da pesquisa confirmaram o senso comum. Cruzando dados de diferentes estados norte-americanos, verificou-se que o gasto em bens de alta visibilidade – carros e jóias, notadamente – era maior entre grupos sociais menos afluentes. Assim, a pesquisa concluiu que o consumo ostensivo não seria necessariamente um sinal de riqueza, senão que seu contrário: uma confissão de condições econômicas menos favoráveis.

A pesquisa americana ajudou não apenas a dar credibilidade a um estereótipo histórico, como também a corroborar um dos pilares da teoria sobre consumo de bens de luxo: aquele que trata das motivações predominantes para a compra desses itens.

Basicamente, existem duas motivações para adquirir um item de luxo. A primeira é a autogratificação, representada pelo prazer e pela satisfação que um objeto de alto padrão proporciona, devido a sua beleza e qualidade. Trata-se de uma motivação essencialmente íntima, pessoal, cujos benefícios são desfrutados de forma privada.

A outra motivação é chamada de simbólica e diz respeito àquilo que o objeto representa para uma determinada sociedade. Produtos de luxo sinalizam sucesso profissional, poder econômico e, em alguns casos, bom gosto e refinamento. Quando uma pessoa compra e usa um item de luxo, transmite uma mensagem a seu respeito para os outros.

E qual a relação entre a pesquisa mencionada e a teoria sobre as motivações? Simples. Produtos de uso público, como carros, jóias e relógios tendem a ser comprados mais pelo aspecto simbólico que encerram do que pela autogratificação que proporcionam. Afinal, são itens que serão exibidos aos demais.

Produtos de uso privado, como equipamentos de áudio e vídeo, objetos de decoração ou de conforto do lar, por sua vez, tendem a ser adquiridos pelo prazer e pela satisfação que oferecem, uma vez que não serão mostrados a ninguém – a não ser aos mais íntimos.

Claro, a separação das motivações não é assim tão radical. Na prática, elas se misturam. A rigor, o que se pode afirmar é que existe uma tendência de que motivações simbólicas predominem na compra de produtos de uso público, e de que a autogratificação seja mais forte na compra de objetos de uso privado.
 
É interessante observar que a predominância de uma motivação ou outra não varia apenas conforme o poder econômico das pessoas, mas também de acordo com questões culturais mais abrangentes. Estudos mostram que franceses e italianos, por exemplo, têm uma relação com o luxo muito mais hedônica do que norte-americanos e japoneses – que enxergam nesses objetos elementos de forte simbolismo.

O mérito da pesquisa feita nos EUA é comprovar, com dados empíricos, a validade de impressões gerais que com o tempo ganham status de certezas absolutas para a maioria das pessoas. Afinal, quando a ciência desmente o senso comum, gera um leve mal-estar, indicando que nossos (pre)conceitos sobre muitos assuntos merecem ser revistos. Mas quando faz o contrário, é inevitável que provoque uma sensação de conforto e reafirme os méritos da “sabedoria popular”.

Serviço: “Conspicuous consumption and race”, de Kerwin Charles, Erik Hurst e Nikolai Roussanov.
Disponível em: http://faculty.chicagogsb.edu/erik.hurst/research/ race_consumption
_qje_submission.pdf

Autor de “Precisar, não Precisa – um olhar sobre o consumo de luxo no Brasil” (ed. Lazuli/Cia. Editora Nacional).
Site: www.precisarnaoprecisa.com.br
E-mail:
livro@precisarnaoprecisa.com.br

 
 
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edição nº 132 -