Descartável
adjetivo de dois gêneros, que pode ou deve ser descartado
1 que não se destina a conservar nem a consertar; que se deita fora após uma ou mais utilizações (diz-se ger. de objeto facilmente substituível)
2 Derivação: sentido figurado.
que se caracteriza por ser passageiro, sem profundidade ou importância
Essa definição do dicionário Houaiss de Língua Portuguesa perde completamente o sentido quando olhamos a obra dos irmãos brasileiros mais conhecidos mundo afora: os irmãos Campana. Humberto, graduado em Direito, e Fernando, em Arquitetura, descobriram uma espécie fórmula mágica para fazer Arte (com A maiúsculo mesmo) com ares de brasilidade e características de sustentabilidade muito antes de essa expressão entrar na moda. Foi no começo dos anos 1980 que os designers – por vocação – resolveram se inspirar na brasilidade e em objetos banais, facilmente encontrados no dia-a-dia, ou até descartáveis, para criar peças únicas. Suas criações, hoje, chamam a atenção do mundo todo e ganham um espaço cada vez maior em eventos como o Salão Internacional do Móvel de Milão.
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Para se ter ideia do valor de suas obras atualmente, basta saber que a filial nova-iorquina da casa de leilões Phillips de Pury & Company leiloou um dos sofás Sushi (criação dos irmãos feita de retalhos de tecidos enrolados e forro em carpete) por US$ 253.000. “A pasteurização enche o saco, então é importante acrescentar um elemento novo àquele objeto já conhecido”, disseram os Campana à BBC em 2005. Outro destaque entre suas criações é a cadeira “Vermelha”, feita de cordas de algodão nessa cor trançadas sobre uma estrutura de metal, que hoje faz parte do acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMa. Fibras naturais de palmeiras, PVC, fios de metal e até bichos de pelúcia servem de matéria prima para suas criações. “Nós sempre dissemos que primeiro vem o material, então a forma e finalmente elaboramos a função do produto estudando sua ergonomia, suas limitações e suas capacidades”, disseram ao site Museum.com.
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Desnecessário dizer, portanto, que o trabalho é artesanal, mesmo quando feito em parceria com grandes marcas, como as italianas Edra e Alessi e a brasileira Melissa. No caso da Edra, o diretor criativo da marca, Massimo Morozzi, se encantou com a cadeira “Vermelha” e, mesmo com a relutância dos Campana, insistiu que poderia dar certo. Isso há uma década. O impasse foi resolvido de forma prática: os irmãos enviaram um vídeo deles mesmos fazendo a cadeira, oferecendo uma variedade de formas para um técnico enrolar a corda em sua estrutura de metal para que cada cadeira fosse única. Edra recrutou Giuseppe Altieri, um de seus artesãos mais experientes, para supervisionar a produção. Ou seja, mesmo em larga escala, pode-se dizer que a produção permanece artesanal. Com isso, claramente o valor agregado do produto aumenta e alcança facilmente os US$2.250 dólares.
Edra e Alessi foram marcas que definitivamente marcaram a carreira dos Campana, mas para designers em que a brasilidade tem um valor primordial, faltava ainda uma parceria de peso com alguma grife brasileira. Então, em 2004, os designers lançaram uma linha com três sapatilhas e uma bolsa para a Melissa.
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Para dar o efeito vazado no plástico entrou em jogo um longo trabalho de pesquisa, que começou pelo uso da técnica de tecelagem Zig Zag, desenvolvida durante pesquisas explorando diferentes materiais plásticos. Em seguida, eles descobriram que envolver tubos de PVC ao redor de uma moldura de metal formava um padrão interessante de sobreposição com várias lacunas. Finalmente, o adaptaram às sandálias, sapatilhas e bolsas da Melissa. Vale destacar que todos os desenhos da dupla são feitos a mão, e não no computador, e sempre que recebem a encomenda de uma marca, entregam um protótipo para que ele seja visualizado em três dimensões e não na frieza de um projeto em AutoCAD ou mesmo papel.
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Por fim, não se pode deixar de falar da inspiração que move esses artistas. A resposta, quem dá são eles, ao site Design Museum: “Um bom filme, uma bela exposição, uma caminhada, uma pessoa sem-teto dormindo nas ruas. Encontramos inspiração em nossos arredores – a caótica expansão urbana de São Paulo bem como de suas áreas industriais. O campo, onde nascemos, em Brotas, também é fonte de inspiração e nos estimula a fazer uma fusão entre as estéticas primitiva e urbana e o modo de viver e resolver problemas de produtos. Claro, nós somos estimulados pelo trabalho de outros designers como Achille Castiglioni, Shiro Kuramata, Hella Jongerius, Konstantin Grcic e Ron Arad”. |