"O móvel, como muitas outras coisas de uso humano, tinha de se adaptar aos tempos, tomar novos rumos". A frase foi dita em 1985 por Joaquim Tenreiro, projetista de mobiliário, pintor e escultor que se destacou por criar um estilo brasileiro e moderno de criar móveis. O curioso é que Tenreiro não era brasileiro, mas português, nascido em 1906 na cidade de Melo. Ele costumava dizer que tentava fazer móveis diferentes, pois os que eram feitos à sua época “guardavam vícios do passado”. “Por isso, criei móveis mais leves, funcionais e cômodos”, concluía. De preferência, usando materiais nativos, como a palha. "A palhinha em si não é um produto universal, aplicado em todos os setores. O caso é que no Brasil ela adquiriu características próprias, tornando-se praticamente brasileira" defendia. Madeiras nobres brasileiras, como jacarandá, perobinha do campo, pau marfim, amendoim e cedro eram suas matérias-primas preferidas e ajudavam a dar às criações de Tenreiro as formas e o estilo ideal – arejado e com linhas mais limpas – para enfrentar o clima tropical do Brasil. A trajetória de Tenreiro começou muito antes de sua chegada ao País.
Quando tinha apenas 9 anos, começou a mexer com ferramentas na oficina de marcenaria do pai, adquirindo a habilidade artesanal e a paixão pela madeira que nortearam toda a sua carreira. A marcenaria, aliás, foi a primeira área em que atuou no Brasil, quando se mudou para o Rio de Janeiro com sua esposa, lá pelos idos dos anos 1920. Em 1929, frequentou um curso de desenho no Liceu Literário Português e no Liceu de Artes e Ofícios e viu sua paixão pelas artes florescer. Do desenho para a pintura foi um pulo: paisagens, natureza-morta e retratos estampavam suas telas em um colorido suave, com predomínio de verdes em todos os tons. Cinco anos depois ele já dividia suas atividades entre três áreas: desenho, pintura e design de móveis, para a empresa Laubisch & Hirth. Nessa época, começou a desenvolver móveis de linhas não-tradicionais, o que não tornava suas criações lá muito comerciais. Um dos primeiros a se interessar por seu trabalho foi o escritor mineiro colecionador Francisco Inácio Peixoto, um amante das artes e da arquitetura.
A década de 1940 foi a mais rica da carreira de Tenreiro, sobretudo em termos de criação de móveis. Começou em 1942, com a poltrona Leve, em imbuia preta e com assento e encosto revestidos em tecido branco. Continuou com a Cadeira de embalo, a mesa Estrutural e a cadeira Trípode, com três pés, talvez sua criação mais conhecida até hoje. Ao sucesso, seguiu-se – em 1947 – a abertura de uma loja própria na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana e, seis anos depois, de uma filial em São Paulo. Ele chegou a ter 100 artesãos trabalhando em suas peças, mas ainda assim, o desenho de mobiliário não o satisfazia. Em 1967, após decorar o salão de banquetes do Palácio Itamaraty, em Brasília, fechou sua oficina e suas lojas para se dedicar exclusivamente às artes plásticas. Mas seu interesse por madeiras nobres não diminuiu e ele realizava relevos, painéis e objetos na matéria-prima que acompanhou toda sua trajetória. São de sua autoria, por exemplo, o portão da Capela Ecumênica da UERJ e painéis do auditório do SENAI, na Tijuca, RJ.
Analisando sua obra, fica difícil perceber se a fase mais profícua de Tenreiro foi a de projetista de móveis, a de pintor ou mesmo a de escultor (em que realizava relevos, treliças e colunas em madeira policromada, algo inovador para a arte brasileira dos anos 1980 e 1990). Essa última o acompanhou até o fim de sua vida, em 1992, quando faleceu em Itapira (SP). Até hoje sua obra, e principalmente seus móveis mais emblemáticos, como a cadeira Trípode, mesas e sofás, seguem sendo objetos de desejo de decoradores, arquitetos e consumidores. |