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Aromas exclusivos

Hermès é uma das poucas marcas de luxo a ter seu próprio perfumista

MERCADO | Cosméticos
Por Estela Marchesini -18/01/2010

O que torna uma marca premium mais especial que a média? Qual a importância dos perfumes para uma grife que está no topo do mercado? Como traduzir o conceito de exclusividade em um produto já acessível a (quase) todos? Essas são perguntas que surgem diariamente para quem produz e também para quem consome luxo.

O interessante é que as respostas para todos esses questionamentos podem ser encontradas se analisarmos a história de uma só marca: a francesa Hermès, nascida em 1837 como uma selaria. Muito se tem falado da grife desde que ela chegou ao Brasil, em setembro passado. No entanto, em meio a todas as suas características – história e tradição, produtos de uma beleza simples e refinada, trabalho artesanal e matérias-primas caríssimas e muito bem selecionadas – uma se destaca por ser ainda mais rara de se encontrar: sua perfumaria exclusiva. “É extremamente raro encontrar uma marca que tem seu próprio 'nariz'”, conta o professor do MBA em Gestão do Luxo da FAAP, Davi Goldman.

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É verdade. A americana IFF, as suíças Givaudan e Firmenich, as alemãs Symrise e Haarmann&Reimer e a japonesaTakasago são responsáveis pela maioria dos perfumes de grifes de luxo e até mesmo pelo desenvolvimento de produtos alimentares, acredite.

Olhando por esse ângulo, o clima não nos remete nem de longe à ideia de exclusividade, certo? Mas mesmo assim, elas produzem perfumes – de forma terceirizada – para a maioria das marcas do grupo LVMH e também do PPR e, juntas, realizam cerca de US$20 bilhões em negócios por ano*. A escala de produção é industrial e os lucros também. Sucessos como o perfume J'adore, criado para a Christian Dior pela companhia americana Quest Internacional (mais tarde comprada pela Givaudan), em 1999, podem atingir US$ 120 milhões em um ano. “Mas apelar para um perfumista exclusivo pode agregar uma infinidade de valores a uma marca. Mostra que ela está interessada nos consumidores do topo, e não em oferecer produtos de um 'novo luxo'”, explica Goldman

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A ideia de aplicar esses conceitos à Hermès partiu de Jean-Louis Dumas, herdeiro da família e que foi por cerca de uma década presidente da companhia. Em 2004, ele concluiu que a grife possuía uma elegante coleção de fragrâncias, que incluía o Calèche e o 24 Faubourg, mas vendia pouco. Sua principal concorrente no Olimpo do luxo, a também francesa Chanel, vendera em 2003 cerca de 10 vezes mais (aproximadamente US$1,2 bilhão, à época). Dumas concluiu então que teria duas alternativas. A mais fácil seria investir pesado em publicidade. Ele optou pela mais complicada, porém mais duradoura, e que agregaria muito mais valor à marca: contratar um perfumista, ou como gostam de chamar os franceses, um “nez”, e ter seu próprio laboratório.

Laboratório de perfumes da Hermés

Baseado na experiência da Chanel, que há anos conta com as criações de Jacques Polge (responsável por Mademoiselle Coco, entre outros), Dumas já sabia de antemão o que lhe aguardava: a vantagem de ter uma coleção de fragrâncias que refletisse perfeitamente a personalidade da marca e mantivesse uma identidade coerente e o temor se limitar a contar com a criatividade de apenas um perfumista. Mas a aposta valia à pena.

O talento escolhido para a missão de criar a identidade aromática da Hermès foi o francês Jean-Claude Ellena, nascido em 1947 em Grasse, não por acaso berço mundial da perfumaria. De uma família de perfumistas (seu pai, seu irmão e sua filha também atuam na área), ele começou a trabalhar com aromas aos 20 anos e aos 28 criou First, da grife americana Van Cleef & Arpels.

Desde então já produziu mais de 100 fragrâncias, para marcas como Cartier, Yves Saint Laurent, Bulgari e Emporio Armani. Atualmente, Ellena é um dos 80 narizes da França e uma de suas características é usar de 10 a 20 odores em uma criação, enquanto o comum no setor é usar de 150 a 300*. Pois ele era a pessoa certa no momento certo e Jean-Louis Dumas viria a contratá-lo em 2004.
Dumas não se arrependeu. O perfume Un Jardin sur le Nil, criação de 2005, vendeu US$18 milhões no primeiro ano, tornando-se o perfume número um da Hermès, que fatura anualmente cerca de US$ 100 milhões somente com perfumes. Em 2008, as vendas de perfumes da marca triplicaram, e Terre d’Hermès foi o perfume masculino mais vendido da França.

Laboratório de perfumes da Hermés

De lá para cá, Jean-Claude Ellena já criou 18 fragrâncias para a grife e se tornou referência mundial na perfumaria, tornando-se até um dos principais personagens abordados no livro “The Perfect Scent: a year inside the perfume industry in Paris and New York”, do crítico de perfumes Chandler Burr, lançado em janeiro deste ano pela editora Paperback. Um dos episódios narra o caminho percorrido por Ellena até chegar aos escritórios da Hermès Parfums, no vilarejo de Pantin, próximo a Paris.

Na trajetória, de seu carro, o “nez” acompanha a publicidade quase que extenuante – e intimidante, até – do perfume Chance, lançamento da Chanel de 2004. Cartazes estavam por toda a cidade como uma demonstração da “titânica máquina bilionária de luxo”, segundo exalta o autor. Talvez aí Ellena tenha se dado conta de que o universo mágico e perfumado em que sempre vivera ganhava outra dimensão ao trabalhar exclusivamente para uma marca do porte da Hermès.

*Informações do livro Deluxe: como o luxo perdeu o brilho, de Dana Thomas (editora Elsevier)

 
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