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Por Carlos Ferreirinha

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O que ainda falta no Brasil

O início do ano sempre coincide com o período do lançamento das coleções de outono-inverno da temporada de moda brasileira. Portanto, este é um bom momento para refletirmos sobre a relação moda brasileira versus luxo. Temos ou não uma moda brasileira que seja autoral, que seja realmente de luxo? E se ainda não tivermos, haverá condições de sermos reconhecidos também neste segmento?

É muito importante considerarmos e darmos relevo ao momento atual da moda nacional. Temos que lembrar que, há mais ou menos 15 anos, o mercado brasileiro era fechado - por isso mesmo, o período pelo qual passamos ainda é, mesmo que de forma rápida e precisa, um período de construção.

Temos muito pouco tempo de acirramento da competitividade. E, o que é ainda mais relevante, de produtos da moda internacional disponíveis no Brasil que possam diretamente nos forçar a não sermos em hipótese alguma considerados copistas.

Ou seja, poucos são os países do mundo que conseguiriam de modo tão rápido o resultado que tivemos em uma década.. Esta é, definitivamente, uma qualidade do brasileiro. Seguramente, temos uma moda nacional que não deixa mais a desejar quando comparada e analisada sob a ótica e a perspectiva internacional.

Possuímos bons criadores, excelente trabalhos autorais, processo produtivo que, mesmo tendo de ser muito melhorado e aprimorado, tem cada vez mais apresentado um alto nível de qualificação final, além de eventos de altíssima performance de resultados, como o Fashion Rio e o São Paulo Fashion Week (sem considerar os demais eventos que surgiram nos últimos anos em outras cidades do País).

Criadores da moda masculina têm se esforçado em acompanhar esse ritmo moderno, contemporâneo e, o que é muito importante, atual deste consumidor. E por que não poderíamos mencionar esse "novo consumidor"?

reprodução
Ricardo Almeida, coleção
outono-inerno

O homem, que durante tantos anos esteve sempre aquém do desejado no consumo de moda, tem se apresentado novamente como ousado e interessado no tema.E com isso, tem também revolucionado o comportamento da criação da moda masculina. Novos tempos! E, portanto, novas marcas e novas criações.

Estilistas e criadores como Ricardo Almeida e Mario Queiroz vêm se especializando neste universo masculino com uma construção de moda de forte identidade e presença inovadora. Sem falar das marcas que desde outrora enxergaram o homem, casos de Fórum, Zoomp, Iódice, Osklen, Ellus, VR e a grande referência deste estilo renovado, a Richard´s.

reprodução
Coleção outono-inverno, Osken

Também Alexandre Herchcovitch e Fause Haten sempre buscaram este homem moderno e atual. Temos, ainda, o surgimento de marcas novas - criadores novos que já nascem focados para descobrir assim este "novo homem". São marcas como Chiaro, Reserva, Mandi, Complexo B, British Colony e Guga Kuerten.

Ou seja, o cenário é positivo e animador. Temos, portanto, uma moda masculina de qualidade? Seguramente! Arriscaria ainda dizer que a nossa moda masculina tem surpreendido quando comparada à moda internacional para o mesmo público.

Portanto, seria correto afirmar que temos também uma moda nacional de luxo? Ledo equívoco! Ainda não temos!

reprodução
Lino Villaventura - coleção outono-inverno

Nem tudo que é premium pode ser considerado luxo. Entretanto, tudo o que for inserido e analisado sob a ótica do negócio do luxo, é premium.

Luxo tem a ver com concessão zero. Uma qualidade que surpreenda e são somente garanta a excelência. Luxo tem a ver com a eloqüência e a supremacia de detalhes, com a utilização da melhor matéria prima disponível no mercado. Tem a ver com um produto que seja, no mínimo, excepcional. A gestão do luxo em relação a comunicação, logística, distribuição e formação de preços, deve ser simplesmente perfeita.

Luxo tem a ver com marcas fortes que seduzem, encantam e fascinam pelo poder em si, pela história e pela tradição que foram sendo construídas ao longo do tempo. Luxo tem a ver com excelência total! No Brasil temos marcas de forte prestígio, notoriedade e que são bem-sucedidas. Mas ainda não temos marcas no Brasil que possam ser analisadas sob a ótica do luxo de marcas como Giorgio Armani, Ermenegildo Zegna, Prada, Gucci, Paul Smith e outras tantas.

Se fizermos um paralelo com a moda feminina, este cenário também não muda. Os homens não estão em desvantagem, apesar de o universo feminino ser muito mais abrangente e desenvolvido. Também não temos marcas que sejam de luxo no País. Entretanto, existem exercícios em que muitos se aproximam do universo do luxo - Lino Villaventura faz um excelente trabalho que tem tudo para se desenvolver fortemente no segmento. Alguns trabalhos artesanais, principalmente no norte e nordeste brasileiro, possuem ótimos atributos que poderiam ser melhor aproveitados.

O que digo não carrega qualquer tipo de análise negativa. Trata-se apenas de uma constatação. Interessante e desafiador é ter a certeza de que o caminho da construção da moda nacional de qualidade foi muito bem trilhado até agora. Ainda temos um mundo de possibilidades à nossa frente - inclusive a possibilidade de termos marcas de luxo neste segmento, como já é uma feliz realidade na gastronomia e na hotelaria.

Matéria originalmente publicada no Jornal Gazeta Mercantil em 17/01/2006

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