Domingo fui me encontrar com Degas e suas bailarinas no MASP - Museu de Arte de São Paulo. O encontro não foi a sós. Centenas de pessoas disputavam o melhor ângulo para ver suas obras, as de seus contemporâneos e de artistas que o influenciaram. Era o último dia da exposição "Degas: O Universo de um Artista".
Confesso que me emocionei além da conta, apesar da multidão. Meu coração voltou a bater em francês. Adoro Paris (não faz nem um mês que acabei de voltar de lá, depois de duas semanas só curtindo a cidade luz) e a mostra transpirava Paris.
Paris onde Edgar Degas, filho de pai napolitano e mãe de New Orleans, teve a sorte de nascer e morrer (1834-1917). E também viver o período da belle époque (1890-1914), em que o prazer reinava e la joie de vivre caracterizava a vida cotidiana.
Bailarinas - As bailarinas, deslumbrantes como sempre, me encantaram. Hors Concours! Vi as minhas queridas, já conhecidas do acervo do MASP, "As Quatro Bailarinas em Cena" - em óleo sobre tela. E, na redoma de vidro, a eternamente linda escultura da "Pequena Bailarina de 14 anos vestida". Cabelos presos com fita de pano, corpete de bronze, saia de tecido bege-amarelado. Tem uma sósia dela no Museu D'Orsay de Paris. Igualzinha. Acabei de revê-la em julho.

Reprodução
Tive o prazer de conhecer bailarinas que vieram de fora: "As Bailarinas Amarelas" (The Art Institute of Chicago), "Bailarinas nos Bastidores" (National Gallery of Art - Washington), "Aula de Balé" (Philadelphia Museum of Art). Estas em óleo sobre tela. E outras tantas esculturas de bailarinas nas mais variadas poses. Pernas e braços no ar. Poses e poses "bailarinísticas" (termo que acabo de inventar). Para Degas, o que importava mesmo era o movimento. Degas que largou o Direito pela Pintura.
A exposição não tinha só as bailarinas do Degas, mas uma de cair o queixo do seu amigo Toulose Lautrec - a do vestido rodado, intitulada "A Roda: a Bailarina Loie Fuller vista nos bastidores". Esta também é nossa.
Polivalente - Degas era polivalente. Pintor, escultor, isto eu já sabia. Aprendi também que escrevia e fotografava. As esculturas de cavalos me chamaram a atenção por sua beleza e porque gosto de cavalos. Também adorei as lavadeiras-passadeiras. Degas foi o primeiro artista a ver e reconheceu o gesto de um braço magro e nervoso estendido, mostrando o esforço de desempenhar bem o serviço (de passar roupa), era o que informava um texto da mostra paulistana.
Mas deliciei-me mesmo com os desenhos (monotipias) da série Cenas de Bordel: "Sobre o Leito", "No Salão", "A Espera", "Repouso", "O Cliente". Todos do acervo do Museu Picasso de Paris. Texto ao lado dos desenhos contava que na Paris do século XIX, oficialmente, apareciam 145 bordéis num registro de 1870 e havia mais prostitutas do que em qualquer cidade européia. E foi este mundo que Degas conheceu, freqüentou e registrou em pinturas e gravuras, assim como outros artistas da época.
Aí entendi um pouco sobre a atmosfera de Erotismo que ainda sobrevive de forma intensa em Paris. Pude conferir isso, agora em 2006, no mês passado, não só em Pigalle, mas nas ruas de Paris de uma forma geral. Posso até dizer que o amor (incluindo afeto e sexo) estava solto nas ruas de Paris, mas esta é uma outra história que estou escrevendo.
Dei mais alguns passos na mostra e deparei-me, pasme! com a série de águas fortes que Picasso, admirador de Degas, produziu em 1971. Veja só os títulos: "Cenas de Sedução e Degas Voyer" , "Degas Estupefato", "Degas na Casa das Moças", "Degas Sonhando", "Degas Fantasiado". Todas do mesmo Museu Picasso de Paris e lá, com certeza, devem ficar dialogando com as cenas de bordel que menciono acima.
Já quase na saída, enquanto lia o painel que expunha a biografia do Degas, me emocionei de novo quando uma fã entusiasmada, não se contendo me abordou e disse: "Artistas são emissários de Deus. Uma obra de arte faz a gente acreditar em Deus." Eu também penso assim.
Elas estão lá - A mostra do Degas acabou, é uma pena. Não posso recomendá-la. O bom é que as quatro bailarinas em cena, as bailarinas de 14 anos - a nua e a vestida (e mais algumas delas inclusive a do Toulose Lautrec) são nossas. Não vão embora. E isso é motivo de orgulho para nós que vivemos em Sampa. Então , é só dar um pulinho no MASP, ali na avenida Paulista, na frente do Trianon. Não demore para ir. Elas (as bailarinas) vão estar lá esperando você.
Mariza Baur(*) - Advogada, jornalista, membro do Ministério Público da União. Participa das Oficinas Literárias do Club Athletico Paulistano em São Paulo.
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