Lembra, antigamente, quando os prédios ganhavam nomes e sobrenomes dos proprietários das casas demolidas para que eles ali surgissem? E mais tarde, quando reproduziam, sobre as entradas dos já então edifícios, títulos nobiliárquicos em inglês, francês, italiano? E, mais recentemente, em suas fachadas ou em modernos tótens, expressões idiomáticas importadas, bem ou mal traduzidas para nossa realidade, com títulos que tentavam explicar o "conceito" do empreendimento e, às vezes, conter tudo o que eles prometiam oferecer ali dentro, tipo "all included" e "all free services"?
Lembra dos primeiros grandes lançamentos imobiliários, em meados para fim do século passado, que anunciavam a existência de um playground para o lazer infantil, um salão de festas e, quando muito, piscina - uma apenas, e não um atual "diferencial de lazer e paisagismo"? Este era, em geral, um espaço no piso térreo, feito sob medida para que as crianças descessem e deixassem de importunar os pais nos apartamentos, e onde os adultos pudessem se encontrar com os vizinhos para um bate-papo e um eventual churrasco de domingo, além de promover encontros com os grupos de amigos que não cabiam em suas novas moradias. Lembra?
Pois esqueça quase tudo isso. O apelo agora, além da localização, da segurança, do conforto dos grandes espaços externos, e do luxo de se morar em comunidade organizada de forma tão moderna e dinâmica, além de conceitual, é ecológico. Os nomes dos atuais condomínios chamam a atenção para a vista ("de frente para o mar... um mar de verde!"), para o largo entorno - e se chamam quinta, garden, pátio, vivenda, chácara, parque e até forte! Apela-se, inclusive, para uma visita a um bosque decorado, uma analogia à visita ao apartamento modelo decorado, ainda em voga, mas assim superada pelo atrativo verde e espaçoso da imensa área que fica do lado de fora da casa, mas que se integra a ela e ganha importância fundamental na hora da venda.
Apesar das iniciativas isoladas de meio século atrás, como o complexo e genial Conjunto Nacional, uma pequena cidade à beira da Av. Paulista, a idéia das áreas comuns e de serviços cada vez mais completos se alastrou e se solidificou a partir do 'boom' imobiliário dos anos 1970. Assim como os condomínios, de apartamentos e casas, de vez em quando mistos, mais prolíficos e cada vez maiores a cada década, desde que viraram um estilo de viver também entre nós, e se tornaram catedrais da segurança contra a violência das capitais brasileiras. E a onda tomou características regionais interessantes: no Sul, estas áreas oferecem, por exemplo, lugar para aquecer a água do chimarrão. Em Belo Horizonte, ganham quadras da popularíssima peteca. No Rio, balsas para atravessar um canal e dar melhor acesso à praia. Em São Paulo, diversidade e sofisticação. Por quê? "Porque você (paulista) exige sempre", responde o título de uma publicidade de imóveis.
Hoje, especialmente na maior cidade brasileira, é mais acirrada a disputa pelo cliente que busca um imóvel para comprar. "Conceitos", insisto, e não mais simples imóveis, dominam o mercado, pelo menos nos anúncios coloridos dos jornais em geral, a maioria em páginas inteiras ou duplas, e nas revistas especializadas e chiquérrimas e caríssimas malas-diretas que recebemos em casa ou nos faróis, além dos convites para belos, fartos e concorridos coquetéis de lançamento, nos imensos estandes de vendas que parecem salões de eventos. Obras aceleradas, prazos de entrega imediatos e facilidades de pagamento não são mais os únicos pontos positivos. Habitar uma ilha em plena cidade ou viver ao lado de um parque, e por isso ter vista eterna sobre o verde ou, ainda, ter acesso direto e privativo para dentro de um shopping center, são pontos de venda que servem igualmente como atração irresistível.
Morar literalmente em um parque (faz sentido, há terrenos de até 230 mil metros quadrados!), ou mesmo dentro de uma "cidade", com direito a shopping center e edifícios comerciais, é anunciado como grande vantagem (por exemplo, de se deslocar, em carrinho de golfe, até o trabalho). E "o grande sucesso de público e de vendas" também serve como argumento de construtoras, pelo menos nos textos produzidos por suas agências de propaganda. Visitar o "maior (apartamento-modelo) decorado da história" quer traduzir uma bela experiência. Quase como visitar uma exposição, por quê não? Talvez "inspiradora, insuperável, invejável, incomparável, inconfundível", adjetivos retirados de outra destas páginas, e considerados absolutamente insuperáveis se todos reunidos em um único empreendimento, ou em um simples (?) apartamento.
O estilo neoclássico reeditado, aqui nascido e criado, é motivo de orgulho e alarde - e considerado quase uma obra de arte, daí a proliferação de castelos neo-franceses de até trinta andares, bem ao gosto paulistano clássico-chique, e efetivamente exigente. O fato de estar sendo construída apenas uma torre (dada a altura dos prédios) dentro do terreno, também conta ponto. Mas conjuntos de torres também fazem volume e sucesso. Segurança e beleza, idem. Condomínios de edifícios ou casas surgem a olhos vistos o tempo todo. Para onde se olha se vê uma ou mais casas sendo destruídas, um estande de vendas e um tapume sendo erguidos, uma construção em andamento, um novo empreendimento em fase final. Placas por todas as esquinas sinalizam os condomínios: viva isso, sinta aquilo, comemore, more já!
Usa-se, para este tipo de construção tão caprichada, o codinome Alto Padrão. E o que isso significa e determina? O pé-direito alto dos novos apartamentos, mesmo que não sejam os tais pretensos lofts. Três, quatro e até cinco metros do chão ao teto são oferecidos em mansões suspensas - ou mesmo nos modelos compactos, mas luxuosos e caros. Tudo aqui é considerado vantagem: a localização, principalmente em relação à proximidade dos produtos e serviços mais desejados da cidade, como escolas, como um shopping center (que pode estar no complexo). E estas moradias, com até 1.700 m2, podem custar até R$ 16 milhões. É o luxo imobiliário, que continua no próximo número do nosso site...
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