Country Club do Rio de Janeiro. Country, para os íntimos. A morena linda, olhos cor de violeta como os de Elizabeth Taylor, circula lentamente entre as mesas dos pouquíssimos e selecionados convidados do jantar oferecido por uma tradicional marca francesa. O vestido do mais badalado estilista da cidade imprime um desfilar cauteloso à quase menina. Andando com quase o mesmo garbo, atrás dela, o saxofonista faz um solo de Garota de Ipanema, homenagem singela à praia em frente. E aos eternos Tom Jobim e Vinicius de Moraes - e sua musa: loura, gostosa. Bem diferente daquela magra garota da vez, em seus cabelos cacheados - ao contrário das melenas lisas da inspiração de trinta anos antes.
Apresentação da linha de Haute Joillerie, vinda diretamente da França para encher os olhos e esvaziar os bolsos de gente endinheirada. Sem qualquer notícia prévia na imprensa... nem uma nota sequer. Sem fotógrafos ávidos por boas poses de socialites a encaminhar para as colunas de jornais. Sem qualquer alarde, com muita elegância e segurança. Jóias caras, caríssimas, em exposição nas vitrines com belo design incrustadas nos salões do clube, depois encaixadas feito luva - no colo, braços e mãos da modelo, pedem discrição total. O clube também assim o exige. Ou lá, e isso deixaram bem claro, não poderia ser realizado tal evento.
O menu impresso é impecável, assinado por dois grandes chefs de cuisine, exceção pioneira e, portanto, única e honrosa: o residente do clube, e o de um dos grandes hotéis cinco estrelas da cidade, grife também francesa. O sexo feminino aspira e suspira, os homens assentem com a cabeça. O casal imagina a pulseira no braço da mulher. O marido, em alto e bom som, idealiza a troca de alianças da bela jovem com seu filho - a nora que todo pai pediu a Deus. Deusa da beleza, segura por saber que em alguns minutos tiraria aquilo tudo, do colo, dos braços e das mãos. E voltaria em seu jeans para casa - o namorado que não pôde entrar já à espera na porta do clube exclusivo e impenetrável para a maioria. Corta!
Madrugada no Itaim Bibi. O bairro do Itaim, tout court, para quem domina o idioma paulistano Zona Sul. Magras, magérrimas, meninas loiras, morenas e negras, elas são muitas, e andam em grupos. Moram na área, perto das agências que as contratam. Por um sonho chegam dos diversos cantos do país. Especialmente do Sul. E bonitas ou nem tanto, dividem espaço nas quase repúblicas de não-estudantes, longe de suas famílias, e das baladas que imaginam acontecer em São Paulo. E que acontecem, mas nem sempre para elas, solitárias em bandos. Comem cachorro quente barato e altamente calórico. Depois enfrentam os supermercados já vazios do bairro, e no caixa passam um iogurte, um pé de alface.
Ainda que muito meninas, estas anônimas encarnam durante o dia, sobre as passarelas, ou em simples provas de roupas nos ateliês de costura, o modelo ideal, o corpo de mulheres que ainda não são tanto, mas carregam nos ombros e em todo o corpo as roupas novas de cada estação. O peso do luxo que poucas vão viver de verdade. Não, o mundo não é um camarim obscuro ou um catwalk iluminado. Ou um salão de clube chique. A vida não existe apenas sob os refletores, debaixo dos olhos de quem pode comprar. Pelo menos para a maioria. Mas e o sonho, este luxo deve ser tirado da cabeça de cada uma delas?
<< Voltar