Sofás, na casa da gente, devem se alongar para que mereçam estar em nossos home theaters ? Ou ficar mais curtos, assim como as saias e calças (re)lançadas nas passarelas a cada seis meses, a cada coleção? Devemos trocar veludos e sedas por algodão conforme a época do ano? O móvel é fashionable somente a cada estação? O tradicional apelo do luxo pelo clássico e atemporal se transforma em modismo banal, comercial e temporal? O que mudou no mercado da decoração brasileira nas três últimas décadas?
Surgiram os shoppings centers especializados no setor. E lojas ganharam mais espaço. Criaram-se feiras e exposições em formatos inovadores, com muito sucesso e platéia garantida. A importação surgiu na era Collor (é, também este setor se alterou com a chegada dos móveis que vinham de fora em contêineres que hoje carregam nossos produtos daqui para o mundo - um sofá "collorido" então escandalizava ao preço de U$ 10 mil). Valorizaram-se arquitetos e decoradores, também a partir daí internacionalizados sob a alcunha de designers de interiores. Lojistas e profissionais se uniram em núcleos e associações. A indústria nacional teve que se adaptar - fazer parcerias com as grandes marcas do exterior, para tê-las por aqui e, ao mesmo tempo, produzir internamente mais e melhor. Ganhamos até coleções...
E tudo teve que ser revisto: "Só se compra uma cama, em média, a cada vinte anos". "É o marido que dá o aval - leia-se o dinheiro - na hora da compra do mobiliário". Statements e realidades como estas começam a se modificar. A freqüência das aquisições de bens para a casa se aceleram no mundo apressado em que vivemos. O poder de decisão não mais se concentra no "cabeça do casal" em uma sociedade que reinventa suas formações familiares. Estamos em tempos de mudanças radicais.
Philippe Starck democratiza a cadeira clássica, recriando-a em plástico: cai a fronteira antes rigidamente demarcada entre as peças chiques e as populares. Enquanto se expandem as linhas de móveis de alto padrão fabricadas no Brasil, sob encomenda e para poucos, lojas de prêt-à-porter da moda doméstica apresentam novidades baratas e de bom design, e ganham cada vez mais espaço, literalmente, transformando-se em imensos templos de consumo para todos.
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criação de Philippe Starck |
O que isso significa? Uma grande ampliação da oferta e da demanda por aquilo que se refere ao lar, este tão decantado ninho de segurança em que nos abrigamos. E que se traduz em boas e belas ofertas de mercado - de tudo para todo o mundo, cada um escolhendo aquilo que lhe cabe no bolso. Ou fazendo um mix do que é bom. Não importa o preço. Vale a origem (inclusive a autoria), a marca, a estética, o status que o produto traz na hora de compor a ambientação da casa.
Para resolver a questão do consumo, indústrias e comerciantes do setor se encontram sob os signos da viabilização e da comunicação. Lançamentos permanentes, liquidações temporárias, publicidade e promoções/eventos como as mostras de ambientes decorados aproximam o público da realidade cara e chique; ou barata, mas também de bom gosto. Luxo facilitado em prestações, por um lado, enquanto se espera por sessenta dias até o móvel ficar pronto. Ou, por outro, ofertas a preços acessíveis, para se levar na hora.
Assim convivemos concomitantemente com diversas realidades: agora também se escolhem móveis por impulso - o que facilita o descarte de alguns bens com mais rapidez -, enquanto aquela compra boa e planejada garante eternidade no lar. Tem lugar para tudo, contanto que seja bom. E é um luxo saber criar, fabricar, vender e consumir o que existe de melhor. Parece que estamos chegando neste ponto...
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