Visito sempre a feira de antiguidades que acontece todos os domingos no MuBE, o Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo. Uma bela e moderna construção em concreto aparente, localizada em trecho nobre dos Jardins, esquina da Av. Europa com Rua Alemanha, um projeto assinado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha. E vejo, nas barracas que se dedicam à venda de livros de arte usados, alguns exemplares de obras cujos lançamentos organizei há mais de uma década, por encomenda de seus autores, em noites de autógrafos sofisticadas em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Por exemplo: os móveis brasileiros pesquisados pelo banqueiro carioca Candido Guinle de Paula Machado - já falecido - estão todos lá, em exemplar quase impecável que reflete, em fotos e ilustrações, a nobreza de nossas melhores madeiras trabalhadas na colônia brasileira, ainda no século XVIII. Assim como os livros de capa dura que acompanhavam as exposições do pintor Juarez Machado, radicado há anos na França, onde definitivamente se transformou em artista plástico, largando de vez a imagem que por muitos anos o manteve vivo na memória dos brasileiros, como cartunista-mímico no programa dominical de TV Fantástico, que consagrou nacionalmente este também ex-designer catarinense. Por um tempo ele encarnou uma espécie de Marcel Marceau tupiniquim, mas hoje mantêm seu charme, em todas as suas aparições públicas, com um belo moustache e sua figura característica à la Ingres (*).
Vêm à minha cabeça as lembranças das datas em que estes livros foram lançados. Em coquetéis festivos, onde se convidavam as sociedades locais. No caso do livro dos móveis, foram dois eventos: um no Rio e outro em São Paulo. No Rio, a noite de lançamento do livro foi muito prejudicada em quantidade de presenças, em função de um acontecimento trágico: a realização simultânea da missa de sétimo-dia de um rico empresário e sua mulher, mortos a bordo de seu avião, que caiu. Elegante com seus demais conhecidos que não privavam da intimidade do casal, Dr. Candido seguiu incólume para o Paço Imperial, onde recebeu poucos e fiéis amigos para a apresentação de mais um daqueles importantes estudos que havia feito - e transformado em objeto de luxo compartilhado com o público. Já em São Paulo, a noite de festa foi bela e plena. Realizou-se no MASP, onde o empresariado e a sociedade prestigiaram em peso a nobre figura do empresário que esteve, por muitos anos, à frente do Banco Boavista, um dos bons negócios de sua tradicionalíssima família.
No caso de Juarez, seus lançamentos sempre foram muito alegres. Tanto no Museu Nacional de Belas Artes quanto no shopping Rio Design Center, dois dos eventos que organizei, suas telas expunham figuras absolutamente características de sua pintura retratista e original, portanto inconfundível. E os livros que ali se vendiam, como catálogos luxuosos da exposição, traziam um requinte pouco comum aos vernissages - de então e de sempre.
Estas histórias ocorreram há pouco mais de dez anos, e remetem-me a um pensamento único (não lhes conto os demais exemplos ou ficaríamos aqui por páginas e páginas): dez anos, o tempo em que se conta a chegada de uma nova geração, é o mesmo tempo em que o luxo vira lixo?
Sem dúvida não. Ou estaríamos chamando de lixo todas aquelas pratas, louças, cristais à volta, nas demais barracas. São antiguidades. Fruto da coleta entre famílias abastadas que um dia puderam comprá-las ainda reluzentes, novas. Mas desde quando um livro com dez anos de vida é uma antiguidade? Por que alguém se desfaz de um luxo destes em tão pouco tempo? Seriam tão rentáveis e valiosos quanto um castiçal ou uma dúzia de copos? Ou não haveria mais espaço nas estantes e sobre as mesas de centro para abrigá-los? Ou, ainda, teriam caído de moda, sendo substituídos por luxos mais novos, outros livros adquiridos ou ganhos em outras noites de autógrafos ou vernissages? E um luxo substitui outro luxo? Ou deve ser considerado e mantido em casa como tal para sempre?
Ter cultura é um luxo. Mas não precisamos necessariamente possuí-la assim, fisicamente. Desfazer-se de algo que não queremos ou não precisamos mais é absolutamente compreensível. E nada condenável. Nisso tudo, só acho pena em duas coisas: que a gente perceba, num domingo de sol, como está ficando velho rápido, e que as novas gerações, que alguma hora devem aportar àquelas casas onde um dia estes livros estiveram, não venham a ter acesso fácil e gratuito a estas belezas raras, até porque esgotadas. Talvez algum dia se interessem, e venham a comprá-las na feira de antiguidades do MuBE. Por que não?
(*) Jean-Auguste-Dominique Ingres (1780-1867), pintor francês que ficou conhecido por seus retratos.
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