<< MATÉRIAS ANTERIORES

Compulsão às compras e o objeto do desejo
Por Paul Kardous, psicanalísta, psicólogo, Mestre em comunicação e semiótica e Prof. da FAAP nos cursos de Moda, Desenho Industrial e na Faculdade de Comunicação.

Por que certas pessoas sentem-se obrigadas, impulsionadas e pressionadas a repetir infinitamente certos atos, no caso comprar, quando em alguns casos, não extraem prazer de tais ações?

O que a compulsão de comprar pode estar expressando da estrutura psíquica de um sujeito?

Os objetos comprados são de fato seus objetos do desejo?

O objeto do desejo, para a psicanálise, não se confunde com os objetos naturais, nem com os objetos disponíveis no mercado.

A psicanálise entende esta questão muito além da psiquiatria clássica, não classificando-os como distúrbios do comportamento. Ao analisarmos esta questão mais de perto, entendemos que a compulsão às compras não pode ser entendida separadamente do conceito de compulsão à repetição, pois o que está em jogo é a própria repetição do ato de comprar.

A criança, ao ter que fazer uso da linguagem, sofre um efeito que chamamos de perda de gozo, já que está vivendo um gozo totalizante. Tal perda irá produzir uma marca psíquica e fundar o que chamamos de objeto do desejo. Assim, o sujeito irá para sempre procurá-lo nos objetos substitutos, os gagets produzidos pela cultura assim como nos significantes de linguagem, destacados por Freud. Esses jamais encontrados de fato, mas sim apenas reencontrados. Esse mecanismo de reencontro com o objeto do desejo é que impulsiona o sujeito a sempre relançar sua demanda. Demanda de repetir o comportamento de comprar.

Assim sendo, a repetição instaura a perda inicial que fez a criança sair da sua condição primária de prazer constante, em que nada lhe era privado, e alcançar o estatuto de sujeito 'desejante'. O sujeito procura este objeto substituto, para enfim reinstaurar a dimensão do inconsciente. Para nós psicanalístas a repetição é um dos quatro conceitos do inconsciente.

<< Voltar