edição nº 68 -
 
 
 

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Traga o seu vinho
Por Paula Visconti, de Montreal - Canadá

Quinta-feira, sete da noite (apesar do sol ainda brilhar lá fora por conta do horário de verão no hemisfério norte). A loja da SAQ ( Societé des Alcools du Québec ) da rue Sainte-Catherine, em pleno centro da cidade, está com uma fila de mais de dez pessoas para passar no caixa. Tudo muito normal, afinal isso aqui é Montreal (desculpe a rima inevitável!).

Antes de explicar a cena acima, vale a pena voltar no tempo e contar um pouco de história...

Bons vivants e bons gourmets , os québécois - originários da província de Québec, onde Montréal está situada - apreciam e saboreiam os prazeres à mesa. Dos aperitivos às entradas, do prato principal à sobremesa, do café ao prato de queijos que encerra as refeições. E, obviamente, diferentes tipos de vinhos acompanham cada uma das etapas. Exagero? Nem tanto assim, pois o ritual gastronômico está na veia desse povo que foi colonizado pelos franceses e, até hoje, guarda com muito orgulho uma forte herança cultural européia.

A partir do breve comentário, fica bem mais fácil entender alguns comportamentos locais, como a hiper lotação das lojas SAQ - que funcionam de domingo a domingo - ao cair da tarde. Este órgão do governo é responsável pela comercialização de bebida alcóolica em Québec e possui várias sucursais espalhadas pelas cidades. Assim sendo, é justamente lá que os québecois abastecem suas adegas... e o carro-chefe só poderia ser o vinho!

Por falar em adega, é curioso perceber que a maioria dos restaurantes - há exceções, claro - pede aos clientes para levarem sua(s) própria(s) garrafa(s) de vinho. Isso mesmo. A frase apportez votre vin (traga o seu vinho) está estampada na fachada de quase todos os restôs de Montreal. O resultado desse hábito local é que, ao sair de casa, você já deve ter em mente não apenas o que pretende comer quanto o que irá beber como acompanhamento. Trocando em miúdos: no caminho, você dá uma passada em qualquer uma das 95 lojas SAQ e escolhe o SEU vinho.

A justificativa bem simples. Como as taxas que os restaurantes devem pagar ao governo para a venda de bebida alcóolica são muito altas, acaba sendo mais vantajoso - para ambas as partes - se o cliente levar o vinho e o restaurante apenas "emprestar" os copos adequados.

Convenhamos, é simplesmente um Luxo você não ficar limitado à carta de vinhos e aos preços cobrados pelos restaurantes, mas sim poder fazer um 'pitstop' em uma loja SAQ (até mesmo na versão on line www.saq.com ) e ter inúmeras opções de escolha.

SAQ, um capítulo à parte

Conhecida como maison des vins (casa de vinhos), a Société des Alcools du Québec é uma empresa pública que foi criada pelo governo local em 1921. Desde então, tem como principal objetivo ser uma rede de bebidas - tanto atacadista quanto varejista - que engloba toda a província de Québec e, indiretamente, controla o consumo de álcool no cenário québecois. Além de ser encarregada deste enorme e lucrativo comércio, a SAQ ainda é responsável pela qualidade de todos os produtos vendidos em suas lojas.

Vale dizer que essa é uma prática comum, ou melhor, é uma regra geral imposta em todo o Canadá. Cada província tem a sua "versão SAQ". Esses órgãos são (re)conhecidos internacionalmente pela rigorosidade na avaliação e seleção das bebidas comercializadas. Antes de apresentar um novo produto nas prateleiras, eles impõem um minucioso processo aos produtores e distribuidores dos quatro cantos do planeta.

Como se não bastasse selecionar, analisar, distribuir e comercializar, a SAQ ainda oferece um serviço très chic e super conveniente para os amantes de vinhos. Aqueles que não dispõem de local nem de condições adequadas dentro de casa para armazenar suas garrafas, podem perfeitamente alugar espaços em caves disponíveis em algumas de suas sucursais. As "adegas de aluguel" variam de formato e tamanho, podendo abrigar entre 400 e 4 mil garrafas. Além de todo o Luxo oferecido, as caves ainda contam com um severo controle de segurança e de privacidade: a entrada é estritamente limitada aos donos de garrafas e somente através de um cartão magnético personalizado combinado com uma chave igualmente única é que se tem acesso ao local. Uma maneira prática e segura de preservar um modesto - ou nem tanto assim! - patrimônio vinícola.

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