edição nº 68 -
 
 
 

Você quer saber as
últimas notícias do
mercado de Luxo?

Clique aqui
 

<< MATÉRIAS ANTERIORES

Diane Von Furstenberg, com muito prazer!

No mesmo dia em que lançou sua coleção de jóias em São Paulo, a empresária Diane Von Furstenberg fez uma palestra deliciosa para jornalistas, empresários e profissionais da moda e do Luxo, no Centro de Convenções da FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado.
Todos saíram de lá apaixonados por ela e por sua trajetória ímpar.
E certos de que, para alcançar o sucesso, é importante se renovar e ter curiosidade sempre, saber reconhecer suas falhas e nunca desistir dos sonhos.

Por Mônica Nunes

Gabriel Vallejo/FAAP
Diane Von Furstenberg

Diane é linda! Sua elegância é natural. Sua alegria, contagiante. O entusiasmo pela vida está em cada palavra e em cada gesto, não importa se fala sobre o faturamento astronômico de sua empresa ou a necessidade de vendê-la; se sobre seus filhos ou o lançamento de um perfume ou ainda sobre a constatação de que perdeu seu poder. Por isso, é impossível não se apaixonar por ela. Diane é encantadora já à primeira vista, e, mais ainda, à medida em que revela cada parte de sua história, com o maior prazer.

Muito simpática e divertida, conquistou a platéia rapidamente e foi ouvida em total silêncio, mas também em meio a risadas e muita emoção. Ela adora contar sua história. Isso está claro em seu livro, "Diane, a signature life", mas, ao vivo, é ainda melhor. Sintetizou sua trajetória de forma encantadora e, em seguida, respondeu as questões da platéia.

Como disse Carlos Ferreirinha, coordenador do curso de MBA de Gestão do Luxo da FAAP e organizador desse evento, "depois de sua apresentação, acho que cada um de nós vai repensar se realmente tem uma vida atribulada". Enjoy it!

Conto de fadas moderno

Diane recebeu, recentemente, o prêmio especial do Council of Fashion Designers of America - uma espécie de "Oscar da Moda" - pelo conjunto de sua obra e vive um de seus melhores momentos. O lançamento da coleção de jóias acrescenta ainda mais glamour à trajetória de uma das mulheres de negócios mais interessantes deste planeta.

Ela nasceu na Bélgica, mas o mundo nunca foi grande o suficiente para os seus sonhos. "Sempre quis ser independente", conta ela. Com apenas oito anos, foi ao encontro de uma tia em Paris, sozinha, e, aos 13, para a Suíça estudar. Aos 15, depois da separação dos pais, mudou-se para Londres, onde se descobriu apaixonada pela vida. Seu lema: "Life is love is life is love is life is love..." . Ela mesma admite que sua vida, em alguns momentos, parece um conto de fadas. Sim, pode ser, mas bem moderno.

Diane morou na Europa e fez muitos amigos ilustres como o estilista Valentino, Marisa Berenson (neta de Elsa Schiaparelli) e Felipe Gonzalez (que hoje é o Primeiro Ministro Espanhol), mas sempre sonhou com a América, para onde foi em meados dos anos 60. Teve uma vida social intensa, tornou-se amiga de Andy Warhol e viveu a época louca do Estúdio 54. Depois de tentar a carreira de modelo, voltou para a Europa onde se envolveu com moda, através de um estágio com o estilista italiano Ângelo Ferreti. Grávida, casou-se com o príncipe Eduard Egon Von Furstenberg, em 1969, e voltou para NY.

Liberdade e poder

Mas foi nos anos 70 que ela pontuou sua carreira ascendente, com uma criação inusitada. Numa época em que a moda ditava a igualdade entre os sexos, inclusive na maneira de se vestir, e que o jeans era o uniforme da juventude, Diane incentivou as mulheres a explorar sua feminilidade através de um vestido, estilo envelope, feito de malha jersey: o wrap dress . Seu slogan: "Feel like a woman".

Depois de mostrá-lo à poderosa editora da Vogue, Diana Vreeland, ela conquistou uma das maiores lojas de departamento de NY - a Bloomingdale's - e as americanas, inclusive atrizes de Hollywood. E, por causa de um anúncio numa revista de moda, vendeu 25 mil vestidos em uma semana. Criou, assim, um dos maiores fenômenos da moda americana e tornou-se um dos mais respeitados ícones da moda mundial e dos negócios. Seu vestido genial recheava o guarda-roupa das mulheres mais bacanas e práticas da época. Algumas chegavam a ter 4 a 5 modelos diferentes. "Faturei 4 milhões de dólares!! Eu era muito feliz e realizada". Até 1976, Diane havia vendido mais de 5 milhões de unidades do seu "vestido envelope", um símbolo de liberdade e de poder feminino para uma geração inteira.

Escreveu um livro sobre beleza. "Uma bobagem porque, com 29 anos, todo mundo é lindo!", debocha. E, em seguida, lançou seu primeiro perfume - com o nome de sua filha, Tatiana - e uma linha de cosméticos. "Estávamos em todos os lugares. Era um sucesso!". Até que, um dia em Paris, se deu conta de que seus negócios não iam bem. "Emprestamos 10 milhões de dólares para pagar as dívidas, mas eu era arrogante e não queria vender a minha empresa", conta Diane. "Mas, em 1983, eu perdi o controle: comecei a fazer licenciamento de tudo e fui obrigada a vendê-la".

Sem identidade

Diane queria continuar embaixatriz de sua marca, mas isso ficou apenas na intenção. "Perdi o controle de tudo, principalmente porque mantinha várias licenças. Então, resolvi me afastar de tudo. Meus filhos eram adolescentes e estavam numa escola interna. Achei que precisava ficar mais junto deles e me mudei para Paris". Mas seu espírito inquieto não descansou enquanto não abriu uma editora - outro sonho realizado - e promoveu vários salões literários. Até que ganhava bem com as licenças: era rica e feliz em Paris, com um namorado brasileiro. Que mais podia querer? Continuou publicando livros - "inspiracionais" - e os filhos cresceram. Quando olhou à sua volta e não viu mais razões para ficar ali, voltou para NY.

" Os anos seguintes foram os mais difíceis da minha carreira", declara. "Quando voltei para os Estados Unidos, percebi que minha marca era uma tragédia. A distribuição era ruim e o design horroroso. Ela tinha perdido a identidade. Todos olhavam pra mim e diziam que eu já era!". Mas, como sempre, Diane não desistiu: "Percebi que o meu trabalho era a minha identidade. Ele era parte de mim. Então, engoli muitos sapos para descobrir uma saída".

Era o ano de 1992. Os compradores antigos não queriam mais a sua marca; os novos não a conheciam. Então, Diane foi atrás de uma nova estratégia: a venda pela TV. Por que não? "Precisava chegar diretamente às consumidoras. E esse era um desafio que eu resolvi topar". Criou uma linha de peças de seda, toda coordenável, à qual deu o nome de Silk Assets. Em duas horas de apresentação, o programa vendeu um milhão de dólares!! "Isso me deu confiança e legitimou as minhas ações". Mas como ela não queria trabalhar com estoque, procurou um parceiro: a maior loja de departamentos de NY. Ofereceu-se como sua designer exclusiva, propondo fiscalizar a produção, enquanto eles mantinham o estoque. "Isso exigia um grande compromisso deles e meu. Tinha tudo pra dar certo".

Da queda para o alto

Gabriel Vallejo/FAAP
Diane, durante a palestra, na FAAP

Assim, Diane abriu um atelier no centro de NY, onde fazia desfiles e recebia a imprensa. E começou a escrever sua biografia. "Eu queria sinalizar o começo de uma nova fase. Quando lancei o livro, lancei também uma nova linha, mas fui surpreendida com uma péssima notícia: meu parceiro havia desistido do negócio. Disse que ninguém queria pagar mais pelas minhas criações". Mais uma vez Diane não desistiu e descobriu que as mulheres mais velhas e, também, as mais jovens estavam comprando os seus wrap dresses nas lojas vintage . "Estava aí a minha grande chance! Relancei o wrap dress , que logo apareceu nas páginas da Vogue: 'The new wrappers' . Era o mesmo estilo, mas renovado. Gorgeous, hot, great! !"

O relançamento do wrap dress foi feito na Sax. "E foi uma loucura! Todo mundo queria. Não importava a idade. Elas se sentiam o máximo!", conta ela. "Por isso é tão importante prestar atenção no seu consumidor e na nova geração. Da noite para o dia, minha marca transformou-se numa marca jovem, contemporânea, que todas as mulheres desejavam".

Diane mudou seu logotipo e contratou um designer inglês para ajudá-la a redesenhar o wrap dress . "Ele trouxe oxigênio para as criações e ainda colocou meu rosto em camisetas e nos anúncios. Minha imagem passou a ter grande importância para a comunicação da marca. Hoje, somos uma marca internacionalizada, que está nas melhores lojas do mundo". Mas mantém uma distribuição controladíssima, que é um dos segredos de todo bom negócio no varejo. Alem disso, todos os meses a marca lança novas coleções. Em junho e dezembro, elas são menores porque estes são meses mais fracos. "Nesta minha segunda carreira, depois do relançamento do wrap dress , me sinto bem melhor. Tenho um staff jovem e só mulheres trabalham comigo. Planejamos nosso crescimento e tudo é rigorosamente controlado", afirma, orgulhosa.

Depois de reconquistar as americanas, Diane ganhou o mundo. Hoje, seu estilo está disseminado em algumas das principais capitais da moda do planeta. Tem lojas em Nova York, Londres, Miami e Paris, e vende sua linha de prêt-à-porter , além da linha esportiva, lingerie , produtos de beleza e óculos de sol em mais de 50 países. Entre as mulheres bacanas e famosas que usam sua roupa, estão as atrizes Ashley Judd, Susan Sarandon e René Zelweger, além da cantora Madona e das irmãs Hilton.

Além do estilo muito feminino da marca, que reflete o próprio estilo de Diane, seu talento para entender as mulheres é, segundo ela, uma das razões para o seu sucesso mundial. "Na Inglaterra, dizem que minha marca tem um estilo inglês. Na França, que é muito francesa. No Brasil, que é um estilo brasileiro. Mas, afinal, uma mulher é uma mulher em qualquer lugar do mundo. E eu sei fazer com que elas se sintam confiantes". Sem dúvida, desde os anos 70!

Constante curiosidade

Depois de revelar os principais acontecimentos de sua trajetória, a platéia quis saber mais sobre o lançamento e o processo de criação de suas jóias ( veja a matéria "As jóias poderosas de Diane" ), mas, principalmente, de onde ela tira tanta força. Emocionada, Diane respondeu: "Um ano e meio antes de eu nascer, minha mãe foi libertada de um campo de concentração com pouco mais de 20 quilos. Então, meu nascimento foi um milagre. Por isso, decidi viver a vida, assim, intensamente. E ela, com sua força interior e saúde muito frágil, sempre me disse uma coisa, que me impulsionou em toda a minha vida : 'O medo não é uma opção' . Aprendi tudo com ela".

E Roberto Stern complementou: "Meu pai dizia que o medo é um mal conselheiro. As pessoas geralmente têm medo de errar. Nós dois aqui (ele e Diane) sobrevivemos com todos os tropeços. E isso vale para quem faz qualquer coisa na vida. A gente sempre leva tropeços e recomeça". E, com a platéia atenta, continuou: "Eu passei muito tempo com Diane e posso dizer que a alegria dela é contagiante. Ela tem prazer de viver o momento. Está sempre muito feliz. E tem curiosidade. Ela tem uma curiosidade total por tudo e é essa a lição para se sentir e se manter sempre jovem assim. Ela está sempre arriscando e nunca se abala. Com tropeços e, alguns, literais. Eu acredito que o prazer tem de estar em viver o momento de agora".

Lições de excelência

Sempre perspicaz e diante de uma platéia emocionada com as palavras de Diane e de Roberto, Carlos Ferreirinha fechou o evento salientando a importância do encontro, que "reuniu duas grandes forças referenciais da excelência: a H.Stern, que é uma das empresas mais internacionalizadas do Brasil e um símbolo de competência e Diane Von Furstenberg, um dos ícones da moda mundial, que sempre soube se renovar".

Mas não parou por aí. Ressaltou as três lições que extraiu dessa oportunidade única: a primeira é que "os céticos em relação ao Brasil devem realmente repensar sua postura porque temos grandes exemplos de empresas de prestígio, que trabalham com excelência e muito nos orgulham, como a H.Stern e outros, entre shoppings, marcas de cama e banho, hotéis, restaurantes...". E continuou: "A segunda constatação é de que liderança não se mantém para sempre. Quem é líder hoje pode não ser amanhã. E a terceira lição é a de que gerir um negócio é ter coragem de reconhecer suas falhas, seus momentos de fragilidade. É perceber que um dia pode ser diferente do outro". Está aí Diane, que nos mostrou tudo isso, brilhantemente.

<< Voltar