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O incrível Mr. Michael Roberts
O jornalista britânico Michael Roberts dá show de elegância, simpatia e equilíbrio em sua palestra -- surpresa da professora.
Mônica Mendes -- para os alunos do MBA Gestão do Luxo
Por Andréa Ciaffone
Divulgação |
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Sr. Gelado, personagem do longa metragem de animação da Disney Pixar,
"Os Incríveis"
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O valor da excelência em design já é um conceito absorvido
pela sociedade. Prova disso que até as crianças têm
oportunidade de perceber isso no longa metragem de animação
Os Incríveis, da Disney Pixar. No filme, dois dos melhores
amigos da família Incrível -- Sr. Gelado e Edna Mode -- nos
fazem pensar em Michael Roberts, que no mais fechado círculo
do jornalismo de moda internacional já provou ter super-
poderes.
Alto, careca, elegante e negro como o Sr. Gelado, Roberts tem
da estilista dos super heróis a mesma lucidez e precisão
analítica temperada por arroubos de entusiasmo disfarçado por
tom "blasé" benígno, algo bastante peculiar, aliás. De fato,
esse cidadão global com passaporte britânico (ou seria o
contrário?) está muito além do que qualquer roteirista, mesmo
que de gibi de super heróis, conseguiria imaginar, porque nos
últimos 30 anos tem sido um dos personagens que mais
influenciaram a formação de conceitos de moda e estilo no
eixo EUA-Europa como jornalista, editor e fotógrafo da
revista do Sunday Times, Tatler, Vanity Fair e New Yorker,
onde simplesmente fez 22 capas em seis anos. Nem Clark Kent
faria melhor. Com ou sem Louis Lane.
Sem aviso prévio -- atitude clássica da turma da Sala de
Justiça -- e sem capa -- a mais nova
tendência para a galera 'super' de acordo com Edna Mode,
Roberts aterissa na sala de aula do MBA Gestão do Luxo da
Faap a convite da nossa docente de Relações Públicas, Mônica
Mendes, responsável pela imagem internacional da Daslu. "A
idéia era mostrar para vocês em primeira mão como pensa uma
figura influente no mundo do Luxo e dar para vocês uma
oportunidade de interagir com ele", disse a sempre sorridente
e precisa Mônica.
Os trinta anos sob a mais intensa pressão na centrífuga do
jornalismo de estilo, moda e arte tiveram efeitos magníficos
em Roberts. Com o pé machucado e arrancado de sua casa em
Búzios na primeira tarde de sol depois de dez dias de chuva,
que lhe pareceram como uma homenagem descabida à sua
juventude em Londres, o jornalista suportou com elegância o
inquérito da primeira turma do MBA de Gestão do Luxo. Sua
atuação pode ser resumida em uma palavra: spezzatura (a
arte de fazer as coisas mais complexas aparentemente sem
esforço, segundo nossa mestra Glorinha Kalil) que, aliás, nem
sempre faz parte do kit super heróis. Wolverine e o Hulk que me perdoem, mas no nosso negócio, Bruce Wayne é
muito mais inspirador.
"A essência do Luxo está em ser o melhor que você puder ser",
afirmou Roberts. "As pessoas tendem a associar Luxo e moda
freqüentemente. No entanto, o Luxo é inimigo da moda." Ao
ouvirem a frase, uma onda de curiosidade se formou entre os alunos da
classe. "Essa inimizade existe porque os bens de Luxo são
feitos para durar e a moda traz a obsolescência construída em
si, porque a mudança é a essência da moda", explicou. "Luxo
tem de estar acima da moda, flutuando acima dela", diz. "O
Luxo tem de estar no topo, como algo quase inatingível que a
moda pode tornar irrelevante."
Mesmo assim, apontou Roberts, existem vários exercícios que
buscam conciliar as naturezas incompatíveis da moda e do
Luxo. "Um exemplo foi o trabalho de Marc Jacobs para Louis
Vuitton, em que uma intervenção específica limitada a uma
coleção injetou a energia da moda em um produto que tem a
virtude de ser atemporal", desenvolveu. "No caso da primeira
coleção, o resultado foi muito bom. Já a última coleção de
Jacobs para Louis Vuitton estava horrorosa. Não tinha nada a
ver com a tradição da marca e não funcionou bem do ponto de
vista estético", completou.
Do mesmo clube do qual fazem parte as editoras Isabella Blow,
Grace Coddington e Anna Wintour, equivalentes de Churchill,
Roosevelt e Stalin no mundo da moda, Roberts demonstra
candura em dizer: "Eu amo moda e por isso mesmo tenho de
defendê-la. Quando uma coleção não é boa, não tem conceito,
qualidade, criatividade e significado, não há motivo para
tentar fazer dela o que ela não é." Roberts admite que há
momentos em que parece haver uma conspiração no sentido de
aprovar propostas de moda que normalmente não seriam bem
recebidas. "É muito triste observar quando o jornalismo é
coagido pelos grandes negócios que certos anunciantes
representam. Isso é errado, mas é uma escolha. Sempre tive
sorte de trabalhar em veículos que me permitiram expressar
minha opinião livremente", diz Roberts. "Adoro moda. Por isso
posso criticar. Além disso, acho que os negócios seriam mais
saudáveis se houvesse mais crítica. Essa gente que diz sim
para tudo, que acha que toda coleção (de um designer) é
ótima cria monstros", acusa. "O mesmo criador pode ter
momentos mais ou menos brilhantes em sua carreira", aponta o
jornalista, que citou o caso de John Galliano que há alguns
anosestava praticamente quebrado. "Tinha apenas três
tecidos pretos diferentes. Anna Wintour intercedeu, Manolo
(Blahnik) acrescentou os sapatos e Galliano fez uma coleção
extraordinária, bem cortada, extremamente bem-feita e muito
feminina", o que prova o ponto de Roberts que o poder
econômico que permite grandes shows corre paralelo ao talento
dos desenhistas.
Quando um dos alunos lhe perguntou sobre o futuro da Alta
Costura, o inglês suprimiu um suspiro e disse "Eu não vejo
muito futuro para a Alta Costura", confessou. "Até meados dos
anos 80, até Karl (Lagerfeld) ir para a Chanel, o pret-a-
porter era realmente tedioso. Depois tornou-se muito mais
interessante. O problema é que agora é que (as coleções de
alta costura) está se aproximando demais do teatral, estão
chegando muito perto do ridículo, algumas estão até perdendo
o contato com a sua essência", diagnostica.
Aproveitando o gancho, uma aluna perguntou qual era sua
opinião sobre os editoriais de moda conceituais demais, como
o da revista W que substituiu as modelos por rapazes
imberbes. "Tenho uma sensibilidade antiquada em relação a
fotos de moda. Para mim (a estrela) é o vestido", disse
Roberts numa resposta que perde boa parte da sua bossa com a
tradução. Em sua língua, Roberts disse "I have an old-
fashioned sensitibility to fashion photos. For me it's the
dress", essa demonstração de destreza ao brincar com as
palavras em respostas a perguntas que muitos considerariam
desconfortáveis é uma ótima demonstração da sua condição
(privilegiada) de redator da revista New Yorker.
Em relação ao mercado de revistas de moda, aliás, Roberts
trouxe novidades. "De agora em diante haverá dois caminhos,
as revistas editoriais e as revistas de compras",
afirmou. "Mesmo as maiores e mais importantes do segmento
como Vogue e Elle sofreram um choque com a chegada das shop
magazines", avalia. Ainda no mundo da comunicação, Roberts se
mostra bastante cético em relação ao emprego de celebridades
nas estratégias de marketing de marcas de Luxo. "Elas já
foram muito além do que tinham para oferecer. É
completamente maluco continuar a apostar nisso", diz nosso
super-herói.
Uma das reclamações de Roberts em relação ao São Paulo
Fashion Week, inclusive, é a questão da cobertura das
celebridades, que na sua opinião, é excessiva e
contraproducente. "Os desfiles são eventos de mercado, as
pessoas estão lá para ver as coleções." Claro que a
valorização da presença de celebridades ocorre em todo mundo,
a diferença é que aqui isso assume uma proporção além do
normal e atrapalha o andamento dos profissionais que têm de
assistir ao desfile.
Sobre qual a visão que seus amigos do olimpo da comunicação
de moda têm sobre o Brasil, Roberts diz que as impressões são
as mais variadas. "Há os que ficam horrorizados e ficam
dizendo "Cuidado! Você vai acabar sendo morto!", outros
suavizam e dizem para eu "dress down". Na outra ponta
espectro, há os que acham o País fascinante, ficam
maravilhados com a mistura de raças, coisa que aqui significa
muito pouco, mas é extraordinária para os norte-americanos.
Entre um e outro, há todos os tipos de fantasias", descreve
Roberts. "Em relação à moda brasileira, acho que eles estão
muito intrigados em relação ao que acontece aqui. Mas ainda
não sacaram direito qual é a do País", avalia. "Além disso,
há um sério problema em relação às data do seu calendário, o
que entra no caminho de quem quer descobrir", completa. "Em
relação ao Luxo, especificamente, acho que o trabalho
realizado pela HStern tem dado um empurrão importante na
conceituação do Brasil como produtor de bens de Luxo no
cenário internacional", afirma Roberts. "Daslu é outra marca
e conceito que impressiona quem a conhece", diz o jornalista
que acabou se tornando colaborador eventual da revista da
loja paulistana. A discreta -- porém destemida -- aproximação
de Roberts com o Brasil pode ajudar a acelerar o processo de
tornar nosso País mais nítido sob as lentes da imprensa
especializada do circuito Elizabeth Arden, nem sempre
imunes à ignorância e à soberba. Semelhanças com os heróis do
desenho animado à parte, só essa disposição de esclarecer o
mundo sobre o Brasil e a turma do MBA de Gestão do Luxo sobre
seu mundo e suas idéias já é o suficiente para fazer de
Michael Roberts nosso 'very own superhero'.
Arquivo Gestão do Luxo |
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Mônica Mendes e Michael Roberts, rodeados pelos alunos do MBA do Luxo |
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