edição nº 68 -
 
 
 

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O Luxo da Arte

Por Maria Izabel Branco Ribeiro
      Diretora do Museu de Arte Brasileira MAB - FAAP

 

Fernando Silveira/FAAP
China: Arte Imperial, Arte Popular,
Arte Contemporânea

O conceito de museu mudou muito nos últimos anos. A maioria de nós associa o termo com algo perdido no tempo. Imaginamos depósitos empoeirados e atulhados de trastes, visitados em longas peregrinações escolares e logo depois esquecidos. Ou pensamos em infindáveis galerias de obras de arte, repletas de objetos vetustos, percorridas em um silêncio de quase devoção.

Os museus são sempre parada obrigatória ao se visitar uma nova cidade. Afirmar ter ido a Paris e nunca ter colocado os pés no Louvre, é incoerência. Mesmo aqueles que se lembram do museu apenas como o lugar do passeio aborrecido, têm sua pintura preferida, tiveram a curiosidade despertada por uma armadura e, pelo menos uma vez, imaginaram que o lugar pudesse guardar algum mistério.

Os museus atuais são pontos de encontro, centros culturais e de lazer, onde algo de interesse sempre está ocorrendo. Exigem salas de leitura, bibliotecas, cafeteria, play-ground, oficina de atividades práticas, auditório, centro de convenções, reserva técnica, laboratórios de conservação e restauro, sala de reserva de obras em trânsito, sala de montagem, marcenaria, vestiário, chapelaria, arquivo, serviço educativo, jardins. Já vai longe o tempo que para se fazer um museu era necessário apenas construir galerias, depósitos e escritórios. Sem contar as livrarias, butiques e papelarias, de onde é quase impossível sair sem a compra de um cartão, na esperança de perpetuar um pouco mais a lembrança do que os olhos viram e do que o coração sentiu.

Dentro do ambiente dos museus a figura do curador já é conhecida há tempos e há cerca de duas década tornou-se pública, pois sua atuação passou a ser evidente. Tradicionalmente, o curador é o responsável pela coleção, por sua integridade física, por sua manutenção e pela pesquisa para que seja melhor conhecida. É também ele que determina que recorte daquele conjunto será mostrado ao público e de que modo.

Mesmo sem estar ligado a um museu, o curador pode propor exposições. É ele que decide o assunto da mostra, a abordagem dada a um tema, as obras e objetos escolhidos, o modo como serão dispostos no espaço, os textos apresentados e tudo o mais que se relacionar a ela. Seu papel equivale ao do editor de livros e ao do diretor de cinema.

A ampliação do papel do curador aconteceu em função da tendência à apresentação de maior número de exposições temáticas temporárias, de proporções médias e grandes, às vezes itinerantes. Observa-se que mesmo as grandes mostras de arte, como a Bienal de São Paulo, ao invés de apenas reunirem as representações nacionais que lhes eram enviadas, passaram, a partir dos anos 80, a trabalhar com temas e enfoques próprios, de acordo com a proposta apresentada pelo curador.

Essa presença cada vez mais ativa coincidiu com alterações no conceito de museu e com a profissionalização de diversas atividades relacionadas às artes e à cultura.

As mostras temporárias acima citadas por vezes exibem por algum tempo aquelas peças que são do próprio museu, mas que, por um motivo ou outro, não estão sempre acessíveis ao olhar.

Porém, o grande circuito de exposições temporárias ocorre com objetos pertencentes a acervos diversos, cuja importância pode determinar sua escala por várias cidades. Nessas mostras, o curador é figura principal, pois sua decisão é determinante dos erros, dos acertos e, conseqüentemente, do sucesso do evento. Esses eventos tornaram-se um meio eficiente para a apresentação e o debate de idéias. São espaços autônomos e privilegiados, onde objetos e obras de arte, acompanhados de informações, determinam que o visitante entre em contato com situações, vivenciem os conceitos discutidos e tirem suas conclusões.

Os objetos hoje mantidos em coleções e preservados em museus, lá chegaram por motivos especiais. São considerados preciosos quer por seu valor intrínseco, quer por sua unicidade, beleza, ineditismo, raridade ou pelo que representam.

Obras de arte e objetos de coleções são portadores de significado. Testemunham uma época e contêm informações de várias ordens. Podem ser observados e em silêncio responderem perguntas. Se colocados em relação a outros, são capazes de fazer narrativas completas.

A obra de um único artista, um aspecto dessa trajetória, a vida de um personagem histórico, um povo, um período, uma crença, um movimento artístico, a influência de uma questão sobre um acontecimento, o estudo dos aspectos que levaram a esse fato, suas conseqüências, um lugar, uma técnica, uma coleção. Eis vários temas para exposições.

O êxito do evento não depende apenas das decisões do curador e de suas habilidades. Está sujeito ao encontro dos investimentos, a colaboração das instituições envolvidas no projeto, a obtenção das condições técnicas adequadas, a participação dos profissionais corretos.

Exceção feita às grandes exposições de acervo de um museu fora de seu local de origem, as grandes mostras reúnem objetos vindos de diferentes procedências. Dadas as características desses objetos, hoje é quase impossível que se concentrem nas mãos de um único proprietário.

Essas grandes mostras reúnem objetos únicos, preciosos e alvo de muito desejo. Alguns desses objetos muito cobiçados são passíveis de serem adquiridos. São especiais e, sem dúvida, conferem ao seu proprietário alguns de seus atributos de prestígio.

Porém, a grande maioria desses objetos é de propriedade de museus. Geralmente são esses os mais caros, mais preciosos e os mais interessantes. Se o conceito de seu desfrute e apreciação fosse apenas a posse, não teriam apelo. A razão disso é que são inatingíveis, pois estão alienados e definitivamente fora do mercado. Depara-se então com uma situação paradoxal. Os objetos mais caracterizados como luxuosos, portanto mais exclusivos, são os que mais são compartilhados. Como obras de museu, são os que estão acessíveis a todos.

A obra de arte e, por extensão, os objetos apresentados nas grandes exposições ostentam todos os predicados dos bens de Luxo. São caros, raros e exclusivos; são desejados e tornam seus proprietários diferenciados, têm excelência, qualidade, beleza. Mas apresentam uma diferença fundamental: só atingem esse grau se forem plenamente reconhecidos pela sociedade que os elegeu e tiverem a possibilidade de serem fruídos e compartilhados pela mesma.

Não raro, o colecionador particular lega a pérola de propriedade a uma instituição ou facilita sua compra, mesmo que implique em algum ônus financeiro. São vários os casos de proprietários que tornaram públicas suas coleções, tanto em museus internacionais como aqui bem perto, no circuito paulistano. A obra de arte egressa do circuito restrito de uma coleção particular e tornada pública ao entrar em um museu por via doação completa seu destino ao tornar-se acessível ao maior número possível de pessoas. Só nesse momento também cumpre definitivamente seu papel como objeto de Luxo, pois, enquanto tal, tem a capacidade única de conferir não só a perenidade ao nome de seu doador, mas a aura de cultura e generosidade.

Entre os vários pontos de tangência, obras de arte e bens de Luxo têm em comum o grau de excelência. Em qualquer que seja a produção considerada, da xilogravura de cordel do nordeste à pintura de van Gogh, é sua qualidade estética, aqui chamada de excelência, aquilo que de fato atinge o ser humano e que a torna arte.

Uma das prerrogativas da arte é estar ao alcance de todos e continuar com todas as características e a excelência de um bem de Luxo, inclusive aumentando seu valor à medida que for conhecida, reconhecida e atingir um número maior de pessoas. A razão disso é simples: a obra de arte não é feita apenas de matéria e, do mesmo modo que o artista não cria para si mesmo, a obra não tem um só autor.

Há algum tempo o Museu de Arte Brasileira da FAAP está integrado a esse circuito de exposições temporárias, apresentando além de seu acervo, exposições temáticas relacionadas às artes em particular.

Essas exposições dedicam especial atenção à produção artística nacional, buscando a pesquisa e divulgação principalmente de aspectos da História da Arte do século XX. Vem sendo praxe apresentar uma vez por ano uma grande mostra de tema internacional, como foi o caso de Arte Egípcia no tempo dos faraós (2001), China: Arte Imperial, Arte Popular e Arte Contemporânea (2002), Napoleão (2003) e Iluminar (2004). Salvo a primeira que trouxe peças da coleção do Museu do Louvre, as demais só foram possíveis por apresentarem obras de origens diversas, reunidas em coleções particulares e museus ao redor do mundo.

Foram desenvolvidas condições técnicas que satisfizessem as demandas dos museus para que os empréstimos fossem efetivados, bem como novas estratégias de abordagem de público, uma vez que atingiam setores além dos afeitos à arte.

Atualmente o Museu de Arte Brasileira da FAAP está no circuito das exposições itinerantes internacionais e a qualidade de nosso trabalho tem a chancela de museus e instituições internacionais com os quais já trabalhamos.

Obras e objetos de acervos do Museu do Louvre, Museu Guimet, Centro Georges Pompidou, Maison de Balzac, Biblioteca Nacional da França, Museu Carnavalet, Museu da Moda Galliera, Fundação Napoleão foram emprestados para as exposições acima citadas, comprovando que os mesmos confiam na qualidade de equipamentos, na atualização profissional e no nível das exposições.

Em abril próximo, o MAB-FAAP apresentará mais uma grande exposição: A Herança dos Czares: Museu do Kremlin. Confirmará que nos dias de hoje a visita ao museu é lazer de excelência e que a competência de nossas instituições é reconhecida internacionalmente. Colocará em evidência as relações complexas e por vezes paradoxais entre arte e Luxo.

Fernando Silveira/FAAP
A Arte Egípcia no Tempo dos Faraós

 

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