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Resumo da Conferência Internacional do Luxo - 25/08/04
Por Andrea Ciaffone
O tempo da Hipermodernidade:
As reações ao futuro
No final dos anos 1970, foi cunhada a expressão "sociedade
pós-moderna", a partir da constatação da falência do projeto
de modernidade do século XVIII. Anunciou-se uma nova cultura
neo-individualista, uma autonomia afetiva, o culto ao corpo e
a priorização da vida privada em relação à
profissional. "Assim, a temporalidade da moda, a sedução do
novo e o efêmero ganha todas as esferas da vida social", diz
Lipovetsky.
Já nos anos 1980 a premência do presente gera uma aceleração
da consciência. "Nessa fase ocorrem dois fenômenos
fundamentais: a mundialização da filosofia neoliberal e a
disseminação da tecnologia da comunicação. Somados esses
fatores geram uma aceleração do tempo. Tornam a
instantaneidade uma exigência e criam a ilusão de que tudo é
possível dentro do agora", descreve o autor de a "Era do
Vazio", obra que analisa a década de oitenta. "Essa visão se
reflete no cenário econômico de forma clara. Nessa época
floresce o capitalismo financeiro que, com sua obsessão pelo
desempenho visando a rentabilidade a curto prazo, reforça a
febre de presente, que acabará sendo exacerbada pela
sociedade da informação. Eis ai o hiperpresente", anuncia
Lipovetsky.
"`Por isso não há senso na idéia de pós-modernidade. Todo o
conceito de pós-modernidade se baseia na sensação de que com
o fim da modernidade algo novo surgiria. A verdade é que o
fim da modernidade não aconteceu. O que de fato ocorreu foi
uma intensificação das características da modernidade",
explica Lipvetsky.
Para o filósofo, nossa sociedade puxou os limites para tão
longe que praticamente perdeu seus horizontes. O estudioso
deu o exemplo do hiperturismo que tem a cidade italiana de
Veneza como exemplo máximo. "A cidade teve de impor limite ao
fluxo de visitantes quede tão intenso ameaça destruir a
cidade. Nesse caso, é o turismo que pode destruir o turismo."
O estudioso também cita o exemplo da hiperpornografia, que
com a sua disseminação pela internet perde o caráter de
proibido e se banaliza. Mesmo nos esportes, segundo o
filósofo, é possível identificar o hiperesporte nos casos de
doping ou no crescimento das modalidades de esportes
radicais. Outro indício dos tempos hipermodernos é a epidemia
de obesidade que atinge até os países pobres. "Existe uma
escala na intensidade em todas as esferas. Entramos numa
espiral ilimitada, um processo de modernização desenfreada e
de hiperindividualismo enquanto as sociedades vivem um
processo de individualização galopante.
Desorientação Sem Fronteiras
"Até os anos 1960, as coisas não eram assim. Religiões,
governos, a forte divisão dos papéis sexuais, tudo isso
criava uma série de fronteiras a que as pessoas deviam se
ajustar na sociedade. Todos esses limites desapareceram nas
décadas seguintes", decreta Lipovetsky. "A sociedade
hipermoderna é a sociedade em que as visões de outros mundos
inatingíveis desapareceram. Não há mais resistência
ideológica. A sociedade de mercado triunfa em todos os
lugares", afirma o filósofo apontando para a flacidez
ideológica que minou o espírito revolucionário.
Na ausência do proibido e do errado não há mais contra o que
lutar, situação que foi fatal para o desejo de
revolucionar. "Não nos sobraram eixos estruturantes na
sociedade além da ambição e o individualismo", constata. "Sem
contra-modelo e sem alternativa a sociedade hipermoderna
repousa sobre três axiomas: lei de mercado (base da Era
Moderna), eficácia técnica (que corresponde à racionalidade
da Modernidade) e direitos individuais (que é relativo à
democracia liberal que surgiu com o Iluminismo)." Lipovetrsky
afirma que a formulação do conceito de pós-modernidade
coincidiu com um momento de otimismo e baixa inquietude com o
futuro. "hoje sabemos que a reorganização da vida econômica
mundial teve conseqüências drásticas como o aumento do
desemprego, a criação de uma nova classe de pobres e o
aumento das desigualdades."
O filósofo nascido em 1944 lembra destes tempos (há cerca de
20 anos) otimistas em que as pessoas possuíam um sentimento
de liberdade. "Vivemos hoje outros sentimentos. O
desencantamento diante das novas (e excessivas) liberdades
provocaram o crescimento da incerteza e instalaram a servidão
ao presente", diz Lipovetsky. "Hoje ao um recuo no hedonismo
causado pelo medo. A liberdade incita ao prazer e ao gozo,
mas paradoxalmente traz angústia. A insegurança substituiu o
desejo de liberdade nestes nossos tempos", descreve.
O filósofo chama atenção para o sistema do tempo em que
vivemos que é o presente absoluto, fechado em si
próprio. 'Toda a propaganda incita ao gozo imediato. Esse
presenteísmo faz que não haja fé no futuro embora o progresso
seja inevitável. Mas mesmo no tempo da instantaneidade não
estamos completamente órfãos do passado e do futuro. A
preocupação com a ecologia, as culturas tradicionais e com as
crianças mostra que existe preocupação em preservar o passado
e promover o futuro. Ao mesmo tempo há a inquietude em
relação ao fim do valor dos diplomas, ao desemprego. "Não se
vê de que forma se vai sustentar a cultura hedonística que só
visa a fruição do momento, o "carpe diem" em uma espécie de
neo-epicurismo", descreve Lipovetsky. "Só que essa atitude de
busca do prazer tem menos de culto ao instante que de
inquietação pelo futuro, no estilo "aproveite antes que
acabe".
A leveza de viver da hipermodernidade está no recuo da
preocupação. "Desde muito cedo as pessoas se preocupam,
estudam mais, acumulam mais diplomas, investem em atividades
para-escolares como aulas de música, teatro e esportes. É
como se os pais quisessem dotar os filhos de equipamentos
para que eles pudessem se defender dos seu próprio futuro",
aponta. "A preocupação é tanta que hoje o tema saúde
substituiu a libido como tema de conversa. A lista de
obrigações como perder peso, não fumar, usar preservativos
mostram uma brecha significativa no desejo de "carpe diem".
Vivemos um presente ansioso em relação ao futuro", assinala
Lipovetsky.
Dessincronização
"Existe um conflito entre privilegiar o imediato e planejar o
futuro. O conflito de gerenciar o tempo é permanente. Não
somos mais uma sociedade de presente x passado e sim de
presente x presente. A hipermodernidade leva as pessoas a se
perguntarem o que estão fazendo com seu tempo."
O universo do consumo e cultura da informação criou uma
dessincronização das culturas pessoais e uma nova forma de
desigualdade: o que têm tempo e os que não têm tempo.
A velocidade substituiu os laços duradouros nas relações
humanas. A sensualidade desaparece diante da necessidade de
desempenho, some o téctil carnal e surge a cultura digital.
O resultado do caráter paradoxal da cultura hipermoderna é
que os exageros da intensidade do momento são freados pela
preocupação com a saúde.
Toda essa incerteza provoca a fragilização das personalidades
e o aumento dos distúrbios causados por baixa auto-estima. "O
indivíduo hipermoderno está desenquadrado, desprovido de
cadeias estruturantes", afirma o sociólogo que vê todo o
movimento de culto às coisas do passado como uma forma de
compensar a escassez de tempo presente para todas as
solicitações. "A reafirmação do passado se expressa na
quantidade de museus que estão sendo abertos, na
reurbanização de áreas decadentes da cidade, na moda
vintage, nos produtos com certificado de autenticidade e na
valorização das marcas mais antigas", diagnostica
Lipovetsky. "Entretanto, embora o antigo esteja na moda, ele
não tem o poder de organizar os comportamentos. A tradição
virou produto de consumo e paradoxalmente é um objeto de moda.
Essa volta ao passado tem o condão de despertar a
espiritualidade, que hoje funciona de forma oposta à do
passado. O filósofo chama atenção para o fato de que as
pessoas vão cada vez menos à igreja -- há menos casamentos e
batismos -- ao mesmo tempo que crescem os adeptos das
religiões "a la carte" que se baseiam na bricolagem das
tradições religiosas de diferentes culturas. "A identidade
religiosa é individualista. A religião é um objeto do
indivíduo", diz Lipovetski. "Triunfa a economia de mercado,
da impotência diante do tempo e há o reforço do gozo privado."
Tecnologia e otimismo
"A derrocada dos valores morais não irá até o fim. Há nestes
nossos tempos hipermodernos a revalorização da ética, do
justo, do verdadeiro, da amizade. Não se vive só de
tecnologia e da economia de mercado, há uma busca pelo
reforço dos valores morais clássicos. É possível ser mais
otimista em relação ao futuro. A desvalorização do aspecto
humano não é total, portanto o futuro da hipermodernidade não
é tão ruim assim. Não estamos no fim da história. O futuro
ainda não esta´definido. Cabe a nós jogar as cartas e
inventar a hipermodernidade como queremos. Temos de desejar a
nós mesmo boa sorte", finaliza Lipovetsky.
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