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Resumo da Conferência Internacional do Luxo - 24/08/04
Por Andrea Ciaffone

O Homem Desbussolado

Diante da prova em branco, a professora oscila entre o choque e a decepção por alguns momentos até que, estupefata, esclarece ao aluno que ao entregar a prova intacta todo o seu futuro estará comprometido. Entretanto, mesmo diante do conjunto de mazelas que aquele seu ato poderia provocar descritos com eloqüência por sua mestra, o jovem permanece impassível e insiste em entregar a prova em branco. A partir desta situação, o psicanalista Jorge Forbes apresenta algumas características dos tempos em que vivemos. "Hoje, a liberdade serve de limite à liberdade", disse Forbes durante a abertura da conferência internacional O Confronto da Pós-Modernidade, o Homem Desbussolado. Realizada pelo Programa Gestão do Luxo da FAAP e pela CPFL energia, o programa contou com participação do filósofo francês Gilles Lipovetsky. Considerado um dos mais importantes pensadores contemporâneos e autor de livros que acenderam polêmicas entre os intelectuais, Lipovetsky esteve em São Paulo para lançar seu mais recente livro "Os Tempos Hipermodernos" em que esclarece que vivemos uma época de exacerbação do individualismo característico da modernidade e não uma era "pós-moderna" supostamente feita de novos valores. Ao mesmo tempo, como resume o professor Pierre-Henri Tavoillot, da Universidade de Paris IV (Sorbonne) no prefácio do novo livro de Lipovetsky, não se trata de uma vitória do materialismo e do cinismo e sim um reinvestimento afetivo em sentimentos e valores tradicionais como o gosto pela sociabilidade, a indignação moral e a valorização do amor e outros valores que reforçam o aprofundamento humanista do indivíduo. Para ele, o indivíduo hipercontemporâneo que o filósofo descreve é mais autônomo, as também mais frágil pois suas obrigações são mais pesadas e mais frágeis. "A liberdade, o conforto, a qualidade e a expectativa de vida não eliminam o trágico da existência, pelo contrário, tornam mais cruel a contradição", destaca Tavoillot em sua reflexão sobre pensamento de Lipovetsky.

Sem norte ou outra direção

"Mesmo diante do aviso de que sua atitude de entregar a prova em branco limitará algumas das suas liberdades futuras, o rapaz demonstra indiferença diante da preocupação da professora porque é fruto de uma sociedade onde os limites foram destruídos. "Antes a juventude tinha barreiras a lutar, que foram destruídas. "Essa ausência de limites na sociedade gera confusão, ansiedade e insegurança", diz o psicanalista. Forbes aponta que o efeito do desnorteamento da nossa sociedade se expressa por meio da epidemia de utilização de drogas, na música sem palavras e sem passos definidos e na falta de motivação pessoal capaz de gerar distorções sociais impensáveis há algumas décadas como moradores de rua com curso universitário completo. "Os efeitos disso são a depressão -- uma falta de serotonina (substância produzida pela glândula pineal) que rouba o eixo vertical da identidade e faz as pessoas se avaliarem de forma negativa. O psicanalista aponta o stress que o excesso de escolhas que o mundo de hoje oferece ao indivíduo como fato gerador deste stress que acompanha o homem atual. "É como oferecer a um obeso um bufê com dezenas de escolhas -- uma fartura que chega a ser torturante porque só vai agravar a sua condição, avaliada por ele próprio como indesejável", diz Forbes. "O desbussolamento é um dos problemas sérios da nossa sociedade", aponta o psicanalista que é o curador a série de debates "Vivendo Além dos Limites - A Globalização no Cotidiano" patrocinada pela CPFL Energia. "A angústia da decisão é maior que a possibilidade de obter prazer com a decisão", explica Forbes.

Mas essa não é única aparente contradição conciliada pelo pensamento de Lipovetsky na visão de Forbes. "Lipovetsky acaba concilia os termos luxo e eterno, que podem parecer excludentes entre si, mas que encontram uma dinâmica muito própria no pensamento do filósofo e sociólogo que no primeiro dia da conferência abordou o tema "Luxo: necessidade e desejo do supérfluo".

"O luxo pode ser definido como algo além da necessidade que não é por isso menos fundamental", diz Forbes que chama atenção para o fato de que o desejo pelo luxo é característico da espécie humana.

"O que vemos hoje é a atração pelo luxo dos sentidos, do prazer e da sensibilidade sentido na intimidade por cada indivíduo e não o luxo exterior, da exibição e da opulência que visa simplesmente demonstrar status", conclui.

Luxo: necessidade e desejo do supérfluo Por Gilles Lipovetsky

"Há algo de chocante e até de escandaloso no luxo. Uns têm tudo e outros não tem nada. Mas, como se pode julgar o luxo e mandá-lo para o inferno? O que há de errado em amar o que há de mais belo, elegante, confortável, o que provoca o gozo?", indagou retoricamente o filósofo que lembra que a questão do luxo tem sido tema recorrente de querelas entre os filósofos desde os tempos de Voltaire. "Esse debate que animou o século XVIII mantém seu sentido, mas não me parece rico. Não é o melhor ângulo para se ver essa questão porque é um ponto de vista moralista, que não deixa de ser válido, mas que se mostra bastante limitado."

Lipovetsky acha que não se pode denunciar o luxo por que é resultado de desigualdades. "É preciso apreender o luxo como fenômeno histórico e não como ignomínia moral", diz o filósofo.

No seu primeiro ponto de reflexão, Lipovetsky destaca que não há sociedade que rejeite completamente o luxo. "A antropologia mostrou que o luxo já existia no neolítico." Antes mesmo de desenvolver as artes da civilização como a cerâmica, a metalurgia e a capacidade de domesticar animais, o homem já se concedia o prazer de usufruir o luxo. "Houve luxo muito antes do esplendor dos palácios. Desde o fim do período paleolítico o homem sempre teve comportamentos de luxo. Em vez de pensar na possível escassez de caça, esse homem se dedicava a criar adornos, a fazer festas grandiosas sem restrições ao desperdício. O luxo é tradicionalmente visto como algo inacessível, mas essa é só uma das suas facetas. O luxo pode ser definido como um excesso nos gastos, uma generosidade escandalosa do indivíduo para consigo próprio". Nesse sentido, o homem pré-historico demonstra um comportamento de luxo ao festejar e consumir até o fim das reservas sem poupar dentro do que seria considerado racional. "Nessa época não havia ainda esplendor material, mas a mentalidade de dilapidação, o impulso de prodigalidade, de gastar tudo com o gozo presente sem se preocupar com as conseqüências futuras revela uma mentalidade de luxo anterior à criação de objetos luxuosos."

Com a invenção da agricultura e da pecuária surgiram artefatos, jóias e hpa havia um sistema de trocas de objetos por meio de escambo. "Nessa época surgiu o conceito de "noblesse oblige", que é corresponde ao espírito de generosidade capaz de trazer o prestígio social para quem a pratica. "Nesse caso, não estamos numa lógica de gozo e sim de poder. Nesse cenário, o costume impele o chefe de um povo retribuir de forma semelhante ou ainda mais grandiosa", diz Lipovetsky.

O filósofo e sociólogo destaca que o luxo tem uma função religiosa, mágica na organização cósmica. "A lógica do Carnaval ilustra bem isso. È um momento de excesso das coisas do corpo, em que tudo deve ser consumido, um momento de combustão para que das cinzas a ordem ressurja magicamente reconstituída. Nesse aspecto, o luxo é um meio de estabelecer uma aliança com outra dimensão da realidade." Lipovetsky acrescenta que tudo isso deixa claroq eu o conceito de luxo nasceu muito antes dos processos industriais. "Tudo indica que o luxo surgiu de um conceito religioso, no sentido de uma re-ligação com o cósmico, com o tempo no seu sentido lato. Nisso baseia-se a tese contra a leitura materialista do luxo." O estudioso chama atenção para o fato de que foi com o surgimento do conceito de Estado, 4 mil anos antes de Cristo, que ocorreu a separação entre ricos e pobres. Nesse novo momento histórico foi que se passou a dedicar objetos de alto valor -- inclusive mágico -- ao mortos. Nesse sentido, o luxo se tornou um elo entre os vivos e os mortos. Do mesmo modo, o luxo tornou-se uma maneira de traduzir a soberania dos reis. O luxo passou a ser o traço distintivo do modo de viver, de se alimentar e até de morrer entre os ricos e pobres. Assim, fixou-se a idéia de que os soberanos deveriam se cercar de coisas belas para mostrar sua superioridade, o que gerou a obrigação social de se distinguir por meio das coisas raras. "Na escala dos milênios, se sempre houve algo que jamais foi supérfluo, foi o luxo", conclui Lipovetsky. "Em 99% da história da humanidade o luxo não era um elemento supérfluo e totalmente imbuído da função de traduzir a hierarquia social tanto no aspecto humano quanto no mágico", completa.

No final da Idade Média surgiu a idéia de colecionar coisas antigas. Esse direcionamento do luxo para o passado não tem nada a ver com saudosismo. É parte do espírito colecionista moderno que envolve o desejo de descoberta dos objetos e o encantamento por suas variações.

O Luxo é Eterno. A Moda, não

A moda surgiu no mundo ocidental basicamente junto com o fenômeno da Idade Moderna, no século XIV. A moda exige permanentemente que o novo suplante o que veio antes e consagra os que adotaram primeiro a novidade com uma aura de prestigio social. "A partir do Renascimento, o luxo se descola do poder e acaba fazendo parte de outros setores da vida", diz Lipovetsky.

O filósofo estabelece que a modernidade do luxo só surgiu no século XVIII. "Quanto maior o desenvolvimento técnico trazido pela Revolução Industrial, maior a possibilidade de fazer a distinção entre o que é nobre na matéria e também no que não é tangível nos objetos e que resulta na sensação de luxo. Nesse período inicia-se uma nova era para o luxo", ensinou Lipovetsky.

Nesse momento o luxo ganha sua dimensão sensual, como uma forma de satisfação da libido. "Foi nessa fase que surgiram os tratamentos de talassoterapia, os spas e todos os outros conceitos colocam o luxo como uma forma de experiência táctil", aponta Lipovetsky. "Nessa fase começa a dimensão do luxo como forma do indivíduo satisfazer a si próprio e não apenas como instrumento de diferenciação social", destaca o filósofo.

A partir deste momento o luxo ganha sua face emocional, sensual e se mostra como experiência. Com isso, vai além do sentido da acumulação exibicionista de coisas caras, que o filósofo acredita ser a segunda grande tendência do segmento de luxo. "Quando um milionário gasta US$ 22 milhões para ir ao espaço, ele está em busca de uma experiência pessoal. Ele queria sentir emoções extraordinárias, ver de perto o espetáculo do cosmos. Isso é um luxo, muito embora ele tivesse viajando em um nave militar, sem o serviço de bordo ou elementos de conforto que caracterizam a aviação comercial.

O autor do "Império do Efêmero" deixa claro que isso não significa o fim da elitização do luxo. A vontade elitista permanece nessa face do luxo, mas ela não se expressa pela ostentação voltada para o outro e sim no prazer individual de saber-se diferente. "Fazemos a transição do luxo ostentatório para o intimista", arremata.

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